
Imagem: Reuters/Amanda Perobelli
O encerramento da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação ampliou a cobrança para que o Brasil transforme compromissos internacionais em restauração efetiva de terras degradadas. A meta anunciada pelo governo é recuperar 163 mil quilômetros quadrados até 2030. O tamanho do compromisso exige execução rápida, financiamento estável e monitoramento público dos resultados.
Restaurar não significa apenas plantar mudas. A recuperação precisa considerar solo, água, vegetação nativa, diversidade de espécies e a capacidade de o ambiente se manter ao longo do tempo. Em áreas rurais, também pode envolver práticas produtivas que reduzam erosão, recuperem nascentes e evitem que a pressão econômica volte a degradar o território.
A COP17 terminou em Ulaanbaatar, na Mongólia, com poucos avanços em um acordo global obrigatório sobre secas. Mesmo sem consenso internacional amplo, países continuam responsáveis por cumprir metas já assumidas. Para o Brasil, a cobrança recai sobre a distância entre a área prometida e a capacidade atual de selecionar projetos, liberar recursos, acompanhar obras e medir benefícios ambientais e sociais.
Organizações ambientais defendem prioridade para áreas críticas e participação de povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e moradores que conhecem os territórios. Sem essa presença, projetos podem ignorar conflitos fundiários, substituir ecossistemas diversos por plantios homogêneos ou concentrar recursos sem gerar recuperação duradoura.
O financiamento é outro obstáculo. Restauração exige trabalho por vários anos, manutenção e proteção contra incêndios, desmatamento e uso predatório. Recursos pontuais podem iniciar um plantio, mas não garantem sobrevivência das espécies nem recomposição de funções ecológicas. Transparência sobre valores, responsáveis, área recuperada e indicadores é essencial para evitar que promessa e entrega sejam confundidas.
O impacto vai além da biodiversidade. Solos e vegetação em boas condições ajudam a reter água, reduzir erosão, proteger produção de alimentos e aumentar a resiliência diante de secas e chuvas extremas. No Nordeste, onde a vulnerabilidade hídrica faz parte da vida de muitas comunidades, políticas de recuperação precisam dialogar com convivência com o semiárido e segurança alimentar.
A meta de 2030 deixa uma janela curta para agir. O próximo passo é detalhar quanto será restaurado a cada ano, em quais biomas, com qual orçamento e como a sociedade poderá acompanhar. Sem metas intermediárias verificáveis, a promessa de 163 mil quilômetros quadrados corre o risco de permanecer grande no anúncio e pequena no território.
Com informações da Agência Brasil