
O ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA) | Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
A política brasileira já testemunhou muitas justificativas improváveis diante de fatos que exigiam respostas claras. A mais recente delas veio do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, após a apreensão de milhares de dólares e euros em endereços ligados a ele durante a 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal.
A versão apresentada pelo parlamentar é simples: o dinheiro seria resultado de diárias recebidas ao longo de viagens internacionais oficiais e de moeda estrangeira adquirida legalmente para deslocamentos ao exterior, mas que acabou não sendo utilizada. Segundo Wagner, os valores permaneceram guardados em cofre, alguns deles ainda acondicionados em envelopes do próprio Senado.
Do ponto de vista jurídico, a explicação precisa ser respeitada. O senador não foi condenado, tem direito à ampla defesa e à presunção de inocência. Caberá à Polícia Federal, ao Ministério Público e, eventualmente, ao Supremo Tribunal Federal, verificar se a origem e a movimentação desses recursos são compatíveis com a narrativa apresentada.
Politicamente, porém, a história está longe de encerrar o debate.
Afinal, é natural que um agente público mantenha, durante anos, dezenas de milhares de dólares e euros em espécie? É razoável imaginar que recursos provenientes de diárias oficiais permaneçam guardados em cofres privados em vez de retornarem ao sistema bancário? São perguntas que qualquer cidadão faria diante de um caso semelhante, independentemente do partido do investigado.
A crise se agrava porque Jaques Wagner não é um senador qualquer. Trata-se do líder do governo no Senado, um dos homens de maior confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e figura histórica do PT. Por ocupar uma posição tão relevante, espera-se dele um padrão ainda mais elevado de transparência e zelo com a coisa pública.
O episódio também expõe uma contradição recorrente da política nacional. Setores que, em determinados momentos, exigem rigor absoluto contra adversários costumam recorrer ao discurso da cautela e da presunção de inocência quando os alvos pertencem ao próprio campo político. O inverso também é verdadeiro. O combate à corrupção não pode mudar de intensidade conforme a conveniência ideológica.
A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro envolvendo interesses ligados ao Banco Master. A Polícia Federal aponta que Jaques Wagner teria atuado em favor da instituição no Congresso Nacional em troca de vantagens indevidas — acusações que o senador nega categoricamente.
Talvez a explicação do senador seja verdadeira. Talvez a investigação conclua que todos os valores possuem origem lícita e plenamente comprovada. Mas, até que isso aconteça, a sociedade tem o direito de considerar insuficientes esclarecimentos que, embora possam atender à estratégia jurídica da defesa, não eliminam o estranhamento político provocado pelo caso.
Num país marcado por sucessivos escândalos, a confiança nas instituições depende menos de discursos e mais de fatos verificáveis. Se tudo estiver regular, que os documentos falem por si. Se houver irregularidades, que os responsáveis respondam na forma da lei.
O que não cabe é exigir dos brasileiros que aceitem explicações frágeis sem o devido escrutínio. Em uma democracia madura, nem a condenação antecipada nem a absolvição automática devem prevalecer. O que deve prevalecer é a verdade — doa a quem doer.
Em tempo: nesta quinta-feira, 25, o presidente Lula anunciou a senadora Tereza Leitão (PT) a nova líder do govenro no Senado. Jaques Wagner pediu para sair após pressão de aliados do presidente e até lideranças do PT.