15 de maio de 2026
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Imagem ilustrativa: Desenvolvido com IA (Chat GPT)

POR ÍRIS TAVARES

Dentre as minhas memórias da infância, existe uma que me assombra e me persegue até os dias atuais. A minha tia costumava nos reunir debaixo de um pé de cajarana para contar histórias de trancoso.  Ela possuía um vasto repertório desde chapeuzinho vermelho, a bela adormecida, João e Maria, Maria fumaça e a gata borralheira, entre outras. Histórias cabulosas que provocavam em mim muita inquietação e muitas perguntas que deixavam a minha tia encafifada. E muitas vezes eu pedia para ela modificar o final da história ou eu mesmo fazia contando, para mim mesma, a minha versão.

Com o tempo fui percebendo que entre as histórias escritas, contadas e vividas existe uma verossimilhança, considerando que no processo histórico da humanidade, as mulheres foram escolhidas como objetos da exploração, do desejo e dos diversos interesses que alimentam e sustentam as bases do poder, seja econômico e/ou político. O patriarcado e o sistema capitalista, unidos, são imperativos no processo de objetificação das coisas e dos seres vivos. Vejamos o caso, recente, em São Luís, Maranhão. A empresária branca com o nome de Carolina Sthela Ferreira dos Anjos que se apresenta como cristã e atua como consultora financeira e empresarial. O anel da empresária havia desaparecido, então ela resolveu culpar e torturar uma mulher negra, grávida de cinco meses que fora contratada para o serviço doméstico na casa da própria agressora. Não satisfeita resolveu chamar um policial, seu amigo particular para que ele pudesse aplicar com mais força a tortura e as agressões contra a mulher grávida.

A gata borralheira dos dias atuais é essa que sofre todo tipo de agressão, independente, que seja a madrasta, das irmãs ou não. Houve um tempo em que a exclusividade de castigar e torturar cabia a família, isso foi algo que saiu do domínio da família para ser aplicado no âmbito da sociedade, no meio empresarial. A escravidão que não foi superada. Na verdade, estamos diante da versão mais cruel e desumana que se possa imaginar em um tempo que pressupomos ter conquistado direitos. Onde os direitos humanos das mulheres são proferidos e semeados para dento e para fora dos porões da arrogância e dos impérios do poder. Uma patroa branca e uma serviçal negra. E como estão os espectadores, diante dos fatos? Apáticos ou empáticos?

Para que serve o mito da “democracia racial”? Serve, fundamentalmente, para mascarar o racismo estrutural e conservar as desigualdades raciais no Brasil. Promove a “falsa ideia de que, devido à miscigenação, as diferentes raças convivem harmonicamente no país, sem preconceitos ou barreiras institucionais”. Na fala da patroa está explicito que ela desejava que a doméstica negra tivesse morrido. “Mulheres negras estão, em média, mais expostas a condições de vulnerabilidade socioeconômica, menor acesso a serviços públicos de proteção e maior presença em territórios marcados por precariedade institucional”.

O episódio de São Luís aumenta mais ainda as nossas inquietações, e, os meus questionamentos, como uma militante em defesa de uma vida sem violência para mulheres, não cabem mais numa folha de papel. E você minha cara leitora o que está fazendo para combater a violência contra nós mulheres. Aproveito esse artigo para agradecer a mulher do grupo de whatsapp que resolveu denunciar os áudios de autoria de Carolina Sthela, com certeza a atitude dessa pessoa nos mostra o nível de empatia e sororidade que ela preserva. Gratidão.

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