
Imagem ilustrativa: Desenvolvido com IA (Chat GPT)
Crônica do professor Oberdan Leite
Dona Calista mora numa casa cuja sala de estar contém uma pequena biblioteca de livros novos e velhos que ela foi guardando desde o tempo que catava garrafas e latinhas. Ela cursou o Normal no Estadual, conseguiu entrar na faculdade e hoje ela não precisa mais trabalhar porque os seus dois aposentos, um de professora e outro de viúva, mantém seu aniversário alegre e cheio de histórias.
Dona Calista é daquelas que adoram receber visitas e emprestar seus livros e revistas em quadrinhos a quem quer que seja. Só que quem devolve precisa passar por um leve questionamento sobre o conteúdo do livro emprestado. Quando sai de casa, carregando seu terço azul cheio de pai-nossos e ave-marias, Dona Calista troca palavras com qualquer conhecido e sempre encerra seus cumprimentos com algo assim: “Amém! E que o saber de Augusto dos Anjos lhe abençoe a alma”, ou “Abençoado seja! Que o saber de Castro Alves lhe ilumine a alma”, ou “Louvado seja, que o conhecimento de Machado de Assis lhe glorifique a alma”. E desse “marketing” ela se fez e construiu simpatizantes.
Dona Calista enfrenta as situações cotidianas adversas com bom humor e um rápido discurso sobre autoestima. Certa vez ela nos disse:
– Libere o herói que há dentro de você, meu filho! Descubra que todo homem e toda mulher tem um herói e uma heroína dentro de si. Leia aquelas revistas em quadrinhos (e apontava para um balaio de revistas em cima de um tripé) e sinta a metáfora do conteúdo delas. Perceba que você não precisa esperar o amanhã acontecer para viver o hoje.
Naquele momento, teatralizando seus porquês, Dona Calista se ergueu do seu tamborete, levantou o braço direito e gritou:
– Shazam!
E continuou:
– Olha aí, está vendo, meu filho? Gritar desse jeito não emite raios. E nem funciona se for para transformar você em super-herói e combater o crime. Não é necessário ficar “espritado” de raiva para ser grande como o incrível Hulk e vencer o inimigo. Você não carece ser picado por uma aranha misteriosa, assim como o Homem-Aranha para ajudar o seu próximo. Não é preciso sofrer pela perda dos pais para a violência que nem o Batman perdeu para, só assim, combater a injustiça do seu bairro. O poder e a honra são seus e não de Grayskull para se tornar um He-Man ou uma She-Ra da vida e ter forças. Não precisa ser de outro mundo tal qual a Mulher- Maravilha para mudar o seu mundo daqui. Nenhum super-herói de verdade precisa de forças externas. Precisa, sim, de incentivos e coragem, pois as forças já estão dentro de você.
E eu, pensando cá com os meus botões, acreditei nessa verdade cabida. É uma verdade que todo dia me diz:
– Solte as rédeas! Dê um novo significado a você mesmo. Não importa se a piscina é rasa ou funda. A probabilidade de se afogar vai ser sempre grande enquanto a piscina souber que o poder de grandeza dela está no seu medo de enfrentá-la.
– Solte as rédeas! Vá ao banheiro, viva o banho e lave algumas mentiras que você possa estar vivendo de si mesmo. Olhe-se no espelho e repense o seu melhor. Use sua imagem como referência de superação para não precisar da imagem dos outros.
– Solte as rédeas! Vá lá! Tome seu café e coma seu biscoito. E em cada degustada exercite o fato de você ser a luz na vida de alguém no dia de hoje. Liberte seus momentos de fragilidade para reconhecer neles seus momentos de fortaleza. Então se acenda.
– Solte as rédeas! Perceba que um herói para ser super-herói só precisa de uma nova significação. Ele muda de cor, de pensamento, de estilo, de ideais, de jeito e de forma. E que forma você deve utilizar? A forma que você souber manusear, a que tiver guardada, a que puder usar. Responda com habilidade aos seus desafios que é, cotidianamente, o combate às suas dificuldades.
Moral: Obter conhecimento sem ressignificá-lo, é um ato de legitimar a ignorância.