
COLUNA NORDESTINADOS A LER
POR LUCIANA BESSA
Um convite à escrita literária
Fruto de uma família desestruturada, cedo me apeguei a leitura como uma tábua de salvação. Quando me perguntavam se eu gostava de ler, eu desejava gritar aos quatro cantos que odiava ver/ouvir meu pai gritar com a minha mãe. Como eu não fazia ideia de que poderia ser mal-vista, simplesmente respondia: “sim, gosto”.
A escrita chegou a mim um pouco mais tarde. Lembro-me que no Ensino Médio escrever era uma espécie de martírio. Não compreendia como o encaixe de palavras era um processo tão dispendioso. Muitos anos depois aprenderia que “a forma custa caro”. Não aceitava que as ideias formigassem dentro da minha cabeça, mas que se recusassem a preencher as folhas em branco que teimavam em aparecer à minha frente.
Aos vinte anos de idade, declinei do Curso de História pelo Curso de Letras, quando Aristóteles me disse que, o historiador precisava contar os fatos como eles aconteciam, o poeta, como ele gostaria que tivesse acontecido. A escrita que outrora parecia uma nuvem carregada, lentamente se tornou fina, dispersa. Aos poucos, fui me dando conta de que a escrita é um ato de leitura, planejamento e organização das ideias. Exige observação, constância, domínio do assunto, sensibilidade…!
Foi então que me lembrei que o escritor Osman Lins (1924-1978) dedicou um capítulo inteiro de seu livro Guerra sem testemunha (2025) ao ato de escrever. O pernambucano nos coloca em contato com as dúvidas e as inquietações que ele, na condição de escritor, enfrenta no momento da produção de uma obra. Porém, segundo o postulado gideano que afirma que o escritor, “longe de evitar ou ignorar suas dificuldades, nela pode apoiar-se”; Lins transforma suas angústias na própria obra literária.
A arte literária só existe se aquele (a) que escreve é capaz de traduzir suas inquietações e dificuldades em uma linguagem que além da forma se destine à sociedade. Como discípula de Antonio Cândido, acredito que o escritor/ a escritora é um sujeito de seu tempo que assume um “compromisso” com a sociedade.
Diante das inquietações do autor de Lisbela e o Prisioneiro (1964), compreendi que o ato de escrever não é um dom inato como muitos imaginam. É, na verdade, uma habilidade aprendida. Para isso exige prática, perseverança, dedicação e uma porção generosa de resiliência, porque há ocasiões em que escrevemos trinta e três páginas em um único dia; outros, por mais que tentemos, as palavras parecem se fechar em si mesmas mostrando toda a sua insubmissão, como confessaria o poeta gauche da Literatura Brasileira, Carlos Drummond de Andrade (1902-1985), em seu poema “O Lutador”:
Lutar com as palavras
é a luta mais vã
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
são muitas, eu pouco.
(…)
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias
aceito o combate.
Por que estou dizendo tudo isso? Porque fui provocada pela coordenadora da Ciranda do Livro, Júlia Barreira, a ministrar um Curso sobre Escrita Literária, depois que ela leu Não trocaria minha jornada por nada, da Maya Angelou (1928-2014). Na obra, a escritora e ativista política, une várias temáticas que perpassaram sua existência: racismo, solidão da mulher negra, luto, autoafirmação, poder da palavra, etc. No capítulo 4, Estilo, Júlia disse ter ficado fascinada quando Angelou fala que o conteúdo de um texto é importante, mas o estilo é fundamental. “Ou seja, é preciso prestar atenção não apenas no que é dito, mas em como é dito; não apenas no que se veste, mas em como se veste. Na verdade, nós todos devemos ter consciência de tudo o que fazemos, e de como fazemos tudo o que fazemos”. Ter estilo é assumir um modo singular de expressão.
À princípio fiquei pensativa: se “Ninguém educa ninguém”; ninguém ensina a alguém a escrever, certo? Júlia logo me tranquilizou: “não se trata de ensinar, mas de partilhar experiências sobre o ato da escrita”. Dessa forma, nasceu o Curso de Escrita Literária, que acontece nos sábados de maio.
Confesso que tem sido uma experiência prazerosa estar ao lado de nove outras mulheres para escutar suas inquietações e falar das minhas, ler meus textos e ouvir o delas, pensar estratégias para publicação, especialmente questionar: todos temos uma história a contar? A quem interessaria aquilo que produzimos?
Entendemos que a escrita é um desafio cotidiano ao universo da linguagem. A pergunta que fica para os próximos encontros é uma só: estamos preparadas?