3 de junho de 2026
Comissão cobra retirada de Amado Batista da festa dos 300 anos de Fortaleza após repercussão

Justiça proíbe show de Amado Batista em Carnaubeira da Penha, Pernambuco, na semana das eleições (foto: Vinícius Eduardo/Divulgação)

A participação do cantor Amado Batista nas comemorações dos 300 anos de Fortaleza é alvo de cobranças após sua inclusão no Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão, conhecido como “lista suja”, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Demanda parte da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor). Em ofício enviado à Secretaria Municipal do Turismo (Setfor) na última sexta-feira, 10, é cobrada a exclusão do artista em apresentação do palco do Jangurussu, neste domingo, 12.

Presidente do colegiado, a vereadora Adriana Gerônimo (Psol) voltou a cobrar a retirada do cantor e também se manifestou nas redes sociais.

“É gente, a prefeitura vai manter o show de um cantor que estava mantendo 14 pessoas em trabalho análogo à escravidão, estavam sem salário, sem banheiro, trabalhando 18 horas por dia e sem folga”, alegou a parlamentar.

Adriana também criticou a divulgação do evento nas mídias oficiais da Prefeitura de Fortaleza. “Inclusive, o nível de deboche é tão grande, que a página oficial da Prefeitura acabou de soltar um meme com a música do Amado Batista. Fortaleza terra da Luz terá no palco dos seus 300 anos, um violador dos direitos humanos”, finalizou.

Em tentativa de contato pelo O POVO, a assessoria da Prefeitura de Fortaleza e o prefeito Evandro Leitão (PT) foram acionados, mas não responderam mensagens ou ligações até a publicação desta matéria. A pasta municipal de Turismo, endereçada pela comissão, também foi procurada por meio de e-mail e telefone, mas a demanda não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Amado Batista é alvo de ação do MTE

Cantor e empresário do setor de agronegócio, Amado Batista foi autuado em duas ações de fiscalização, em 2024, em Goianápolis (GO).

Em recente decisão do Ministério do Trabalho e Emprego, ele foi incluído na “lista suja do trabalho escravo”, cadastro que reúne empregadores que teriam submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão.

Os casos são adicionados após a finalização dos processos administrativos, com a fase de ampla defesa, e permanecem publicados por dois anos.

Nas fiscalizações ocorridas há dois anos, estão envolvidos dez trabalhadores do Sítio Esperança, propriedade do cantor, e quatro pessoas do Sítio Recanto da Mata. Em ambos os casos, foram constatados alojamentos precários e jornadas exaustivas de trabalho.

Equipe do cantor menciona acordo com ministério

À época dos fatos, a equipe do cantor Amado Batista informou para a imprensa sobre o firmamento de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a pasta, incluindo a regularização das condições de trabalho apontadas.

Ainda segundo a equipe do cantor, a fazenda utilizada por ele por meio de arrendamento para o cultivo de milho foi fiscalizada, ocasião em que foram apontadas irregularidades na contratação de quatro trabalhadores. Eles seriam vinculados a uma empresa terceirizada.

Com o TAC, “todas as obrigações com os colaboradores foram integralmente pagas e quitadas”, pontuou a assessoria.

Legislativo de Fortaleza cobra participação

Conforme mostrou o colunista Carlos Mazza, da Vertical, a comissão da CMFor pontuou a “naturalização” da violência trabalhista e o financiamento pelo dinheiro público em ofício à Secretaria Municipal de Turismo.

“De certo que, a partir da ciência desses fatos, a manutenção do show do referido artista na programação de 300 anos do aniversário de Fortaleza contraria a lógica, pois naturaliza a violência e desmerece a ocorrência de uma violação dessa monta, já que estaria, a despeito disso, empenhando dinheiro público para financiar a carreira de empresário, cujas economias milionárias patrocinam, por sua vez, um sistema desumano de trabalho análogo a escravidão”, destacou ofício.

Documento continua em tom de cobrança: “Não se mostra cabível, portanto, à administração pública municipal realizar a promoção de uma figura atrelada a essas violações para os fins de entretenimento da população, pois estaria promovendo um artista envolvido na escravização de pessoas”.

Em âmbito legislativo, O POVO contatou as lideranças do governo Evandro Leitão na CMFor na manhã deste domingo, 13, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço jornalístico segue aberto para manifestação.

Com informações do O POVO