
COLUNA O VERBO FEMININO
POR ÍRIS TAVARES
ZÉLIA FRANKLIN – COGNOME RACHEL
Corria o ano de 1942. No Sertão Central do semiárido cearense, Quixeramobim, o casal Francisca e Miguel Franklin de Albuquerque, depois de uma longa espera gestacional, finalmente, via chegar os sons e movimentos da bebê que estava para nascer. Naquele dia 27 de novembro nascia a nossa companheira Zélia Franklin de Albuquerque.
Enquanto o mundo lá fora se arrastava numa Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que desencadeou na ascensão de regimes totalitários e expansionistas (Eixo: Alemanha, Itália, Japão) rompendo com a ordem pós-Primeira Guerra e que resultou no colapso das potências europeias tradicionais e na emergência dos EUA e da URSS como superpotências rivais. Foi nessa conjuntura e nesse ambiente de crise e de muita tensão que Zélia veio ao mundo. O Sr. Miguel, além dos seus afazeres de trabalhador e pai de família não conseguia disfarçar seus temores sobre o que poderia acontecer no futuro bem próximo. Seu peito apertava quando carregava nos braços a sua inocente filhinha que lhe sorria e balbuciava suas primeiras palavras: pa pá, papá.
Foi nesse mesmo ano que o Brasil marcou o fim da sua “neutralidade pragmática” e encerrou a ambiguidade da política externa brasileira, consolidando-se como um parceiro militar e econômico estratégico dos Estados Unidos e dos Aliados no conflito global. Esse ano também foi caracterizado pela escalada da violência no Atlântico Sul, intensa pressão diplomática e econômica dos Estados Unidos, e a declaração formal de guerra contra a Alemanha e a Itália. As notícias alcançavam todo o interior cearense e a manchete da “queda de um dirigível de patrulhamento na atual Av. Bezerra de Menezes era a ‘prova’ que Fortaleza estava sob ataque, tomada de espiões: a guerra estava aqui…”
Zélia cresceu vendo seu pai sempre atento e colaborativo com a coletividade. E mais tarde teve que encarar o distanciamento dos seus genitores, pois precisou se mudar para capital para concluir seus estudos. As figuras materna e paterna sempre firmes e cuidadosas, em particular seu pai com aquela áurea pública e coletiva que sempre a sensibilizou. Ela costuma dizer que havia herdado do seu pai a leitura diária do jornal. Fazia parte do café da manhã de ambos.
No seu tempo de estudante e universitária a companheira Zélia ingressou na luta e na resistência, ainda nos últimos anos da Ditadura Militar que assolou o Brasil por mais de duas décadas. Integrou o movimento que deu os fundamentos para o surgimento do PT, da CUT, do MST, para reconstrução da UNE e para organização das entidades do movimento popular. Naquela época “toda uma geração de jovens foi lançada a luta política, ainda na semiclandestinidade, nesta época, amparada nos ombros dos combatentes que lhes antecederam.” Foi numa reunião de célula que Zélia foi apresentada como uma camarada experiente, advinda da Fração Bolchevique Trotskistas (FBT), núcleo que esteve na origem de O Trabalho, corrente de pensamento, na qual “companheiros/as seguem vivos e ativos”. A missão da companheira foi a de qualificar a organização, pois acabara de regressar do Rio de Janeiro, onde teria finalizado seu mestrado na Universíade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e a partir de então fora recrutada pela Organização Socialista Internacionalista (OSI) recebendo o cognome de Rachel. Salve Rachel!
Sempre estudando e militando, durante toda sua vida tão preciosa para todas nós mulheres de luta. Graduada em Direito e Ciências Sociais e Filosofia com Especializações em Saúde, Trabalho e Ambiente para o
Desenvolvimento Sustentável e em Planejamento da Dimensão Social
do Desenvolvimento e Mestrado em Sociologia – Desenvolvimento Agrícola.
Em memória póstuma a essa companheira e camarada nós reafirmamos a importância e o papel da mulher na luta politica pela democracia e pela igualdade de gênero. Zélia Franklin? Presente!