
Coração de pilha
Por Oberdan Leite
Foi no abrigo Nossa Senhora das Dores, uma Sociedade de Amparo aos Mendigos em Juazeiro do Norte que encontrei Seu Francisco, um senhor cadeirante, desamparado de família, mas de boa conversa e otimista com as pessoas ao seu redor. Ele era um dirigente de pessoas.
Sua conversa simpática me dera uma primeira lição: a conquista de seres humanos não carece de riqueza física, já que riqueza e pobreza dependem da forma com a qual são enxergadas.
Entre tantas conversas que traçamos, ele me apresentou um dos seus mais fiéis colegas de conversa e entretenimento: um pequeno rádio de pilha. Depois de me apresentá-lo detalhando os botões redondos que trocavam AM por FM e outros dois que eram responsáveis pelo volume, ele me convenceu de que aquele pequeno aparelho que cabia na palma da mão era um grande companheiro. Montado em argumentos simples e fortes, ele me pediu para comprar duas pilhas para o pequeno rádio. Argumentou que nunca pediu isso à responsável pelo abrigo porque ela já lhe dava comida e, portanto, não queria mais aperrear ninguém dali.
E seu Francisco argumentou:
– Má só se o sinhô pudé comprá. Se não pudé, um dia quando o sinhô vinhé aqui pode trazê que eu agradeço de coração. Mas num se preocupe que num tem pressa, não. É que meu rádio de piula é um bom companhêro pêu ôví uma muzquinha e uma nutiçazinha aqui e aculá.
Evidente que meu coração não resistiu à ânsia de comprar as pilhas. E assim o fiz. Porém, ao colocar as pilhas no aparelho, ele não funcionou. Veio-me a ideia de comprar um rádio de presente para ele. Olhei meus bolsos e cheguei à conclusão que teria que ser um rádio pequeno, posto que minha disposição financeira não me permitia uma alegria maior.
Ao chegar no abrigo, procurei a melhor maneira de contar ao seu Francisco sobre o problema do seu rádio que não mais funcionava. Mesmo ele próprio botando as pilhas, demonstrava estar ciente de que o problema não era do rádio. Revirou, subiu, desceu, foi, mexeu e remexeu e… nada. Seu Francisco me ensinou uma segunda lição: a sua persistência mostrou-me ali que a autoconfiança e a insistência podem trazer a qualquer um a possibilidade de alcançar o objetivo a que se pretenda. Somos o resultado subsequente daquilo que pretendemos ser. Precisamos ser sempre pessoas persistentes e seguras em nossos quereres, independentemente de outros novos valores que surjam.
Logo depois, eu lhe apresentei o novo rádio que havia comprado. E ele o retirou da pequena caixa vermelha com cheiro de nova e com um sorriso sem precedentes, me disse:
– Deus li abençoe, meu fi! Agora eu acabei de sorri!
Sintonizou diversas Estações e todas funcionavam bem. A alegria estampada no rosto dizia:
– Ah, agora minha vida melhorou!
O seu rádio não funcionara, mas havia em suas mãos outro rádio semelhante com melhores condições de funcionamento. Ou seja, seu objetivo que era o de ter um rádio funcionando em mãos havia se tornado realidade. A sua determinação acabara de atingir seus objetivos que ali se materializaram.
Depois eu me despedi sob mais um pedido dele:
– Você inda pode me fazê mais um último favô? Eu li prometo que é o último e quêu não li peço mais nada.
– Claro! – respondi achando que teria que comprar mais pilhas.
– Cê pode ficá com meu piqueno radin de piula? Olhe, rá faiz tempos e tempos que ele me acompanha e nunca faiô. Se você ficá com ele, o meu esprito vai ficar filiz. E tenho certeza que ele ainda vai funcioná quando chegá de tarde. Eu nunca pensei em dá esse rádio a ninguém. E agora eu dô pru sinhô.
Aceitei seu pequeno rádio que até hoje guardo comigo. Eu aprendi com ele uma terceira lição: o fato de Seu Francisco ter adquirido um novo objeto, não tornou inferior seu objeto antigo. O rádio novo não dispensou a importância do rádio velho que traçou importante tarefa na vida de Seu Francisco, deixando uma marca indelével em sua vida que transcende o mero valor material.
Hoje, na minha mesa de estudo, ouço o silêncio de um rádio que toca a grandiosidade daquele momento.
Moral: Se quer só fazer, faça-o; se quer ser, faça-o como ninguém ainda fez.
SOBRE O AUTOR
José Oberdan Leite, barbalhense, é professor formado pela URCA-Universidade Regional do Cariri com formação também em Pedagogia (UCAM) e com Pós-graduação em Língua Inglesa (URCA), Língua Portuguesa (URCA), Psicopedagogia Escolar (FJN), Gestão Escolar Administração, Supervisão e Orientação (UCAM) e Liderança e Coaching (FMJ). Atualmente cursa mestrado acadêmico em Ciências da Educação pelo Instituto Educainter. Atua como servidor público do estado do Ceará na EEMTI Alaide Silva Santos, Juazeiro do Norte-Ceará.