
Fóssil Cicero spectabilis, proveniente da região do Cariri, estava nos EUA e será devolvido ao Brasil — Foto: Divulgação
Com menos de 3 centímetros, um fóssil conta a história de um tempo em que a América do Norte, a Europa e o norte da Ásia formavam um único continente, e o Brasil estava unido à África no supercontinente Gonduana. O pequeno animal vivia na região onde hoje é o Cariri cearense. Em extraordinário estado de preservação, o fóssil foi encontrado por acaso em uma coleção paleontológica nos Estados Unidos e, agora, vai voltar ao Brasil. Ele se chama Cicero spectabilis.
O animal viveu no chamado período Cratéceo e tem uma idade estimada entre 110 e 120 milhões de anos. A alcunha, Cicero spectabilis, é uma homenagem à figura mais popular do Cariri, Cícero Romão Batista, o Padre Cícero. Ao primeiro nome foi somada a palavra “spectabilis”, do latim, que significa “espetacular”.
Esse tipo de criatura existe ainda hoje e faz parte de um grupo chamado de isópodas. É uma espécie de crustáceo, que pode ser encontrada em água doce e salgada ou em terra, e surgiu há mais de 200 milhões de anos. São seres minúsculos, mas imprescindíveis para a natureza.
Exemplares atuais dos isópodas podem ser encontrados no mundo todo, mas o Cicero spectabilis é de um tipo nunca descrito antes. Além disso, nunca um fóssil desse tipo havia sido encontrado abaixo da Linha do Equador, como explica o diretor do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (MPCN), Allyson Pinheiro, da Universidade Regional do Cariri (Urca).
O animal é mais um exemplo da riqueza fossilífera da chamada Bacia do Araripe, uma região geológica na divisa entre Ceará, Piauí e Pernambuco. A bacia abriga nove sítios paleontológicos com registros de arte rupestre e fósseis de dinossauros e de outras espécies de animais, como peixes e insetos. O local é visitado por pesquisadores do mundo todo pela quantidade e qualidade dos fósseis.
A descoberta do espécime foi descrita por um grupo de pesquisadores, entre brasileiros e americanos, e publicada em julho no periódico Scientific Reports, da revista Nature. A expectativa é que, quando seja repatriado, passe a integrar a coleção do Museu Plácido Cidade Nuvens (MPCN), pertencente à Urca.
Descoberta no exterior e retorno ao Brasil
Em setembro de 2023, um pesquisador estrangeiro chamado Arthur Anker, colaborador regular dos paleontólogos da Universidade Regional do Cariri, informou aos brasileiros que havia encontrado um exemplar de um fóssil caririense dentro de uma coleção do Centro de Paleontologia da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.
Os pesquisadores cearenses então procuraram o responsável pela coleção em Illinois em busca de solicitar a repatriação. O responsável explicou que o fóssil havia sido doado para a universidade por uma pessoa anônima – circunstância que, para os paleontólogos do Cariri, não é novidade.
O tráfico de fósseis era muito comum na região do Cariri, uma das mais prolíficas do mundo em exemplares. Constantemente, fósseis são encontrados nas pedreiras da região, onde há extração de uma rocha calcária chamada pedra cariri, popularmente usada em construções e no entorno de piscinas para dar um aspecto “rústico”.