
Entre as mais variadas tendências eleitorais uma delas é que a campanha eleitoral neste ano no Ceará transforme a disputa em uma espécie de plebiscito: continuidade ou mudança? Elmano tentará apresentar sua candidatura como continuidade de um projeto iniciado com Cid e Camilo e integrado ao governo Lula. Ciro tentará convencer o eleitor de que o Ceará precisa mudar de direção. Essa disputa de narrativas será decisiva.
Ciro x Elmano: mudança ou continuidade serão analisadas pelo eleitor cearense
A pesquisa AtlasIntel/Focus Poder divulgada no último 12 de agosto muda o tom da disputa pelo Governo do Ceará. Ciro Gomes aparece com 49,3% das intenções de voto, contra 44,6% de Elmano de Freitas, uma diferença de 4,7 pontos percentuais. Delegado Huggo Leonardo aparece com 2,8%, enquanto os demais candidatos não chegam a 1%.
A pesquisa ouviu 1.774 eleitores entre 6 e 11 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais. Portanto, a pesquisa foi feita durante os dias em que aconteceu o primeiro debate entre os candidatos ao governo e a desistência de Eduardo girão de disputar o governo cearense.
Ciro lidera numericamente, mas a disputa está longe de estar decidida. A vantagem de 4,7 pontos é superior à margem de erro, mas uma eleição que ainda está em sua fase inicial pode sofrer mudanças importantes com a campanha, os palanques, a propaganda eleitoral e o próprio volume de campanha.
O segundo turno projetado pelo levantamento é ainda mais favorável a Ciro: 53,4% contra 44,8% de Elmano.
Mas há um elemento político que precisa ser considerado: pesquisa mede o momento; eleição mede a capacidade de transformar intenção em voto.
O principal patrimônio de Ciro nesta eleição é justamente estar fora do Governo do Estado. Depois de anos de hegemonia do grupo liderado por Cid Gomes, Camilo Santana e, posteriormente, Elmano, Ciro tenta apresentar sua candidatura como uma alternativa à continuidade do grupo petista.
Ele tem ainda um ativo que poucos candidatos conseguem reunir: conhecimento do eleitorado cearense e uma trajetória política de décadas. Ciro já foi prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro de Estado. Conhece o interior, possui relações políticas históricas e tem uma marca eleitoral própria. Além disso, sua candidatura consegue reunir setores que, em circunstâncias normais, estariam separados.
O movimento mais curioso de 2026 é a aproximação de Ciro com setores da direita e da extrema-direita. A oposição ao PT está tentando construir um palanque amplo em torno do tucano, inclusive com alianças que provocam desconforto dentro do próprio campo bolsonarista.
Elmano entra na disputa em situação diferente. É governador, tem a estrutura política do Governo do Estado e conta com uma ampla aliança partidária. Seu principal cabo eleitoral nacional é Lula, que continua sendo uma figura de enorme importância política no Ceará. A estratégia governista tende a explorar justamente a associação entre os governos federal e estadual.
O palanque de Elmano tem ainda nomes importantes da política cearense, entre eles Camilo Santana, José Guimarães, Eunício Oliveira, Luizianne Lins e Cid Gomes. A presença de Lula no Ceará já foi utilizada politicamente pelo grupo governista na largada da campanha. O PT antecipou sua convenção para 31 de julho para receber o presidente em Fortaleza e oficializar a candidatura de Elmano à reeleição.
Elmano, portanto, tem algo que Ciro não possui: a força do governo em funcionamento. São obras, programas, investimentos, prefeitos aliados, deputados, secretários e uma estrutura política espalhada pelo Estado. O problema é que a máquina também tem um lado negativo. Elmano será julgado pelo eleitor. Ciro pode fazer campanha prometendo mudança. Elmano precisa defender o que fez e explicar aquilo que ainda não conseguiu entregar.
Eleição começa a assumir caráter plebiscitário
A tendência mais provável é que a campanha transforme a disputa em uma espécie de plebiscito: continuidade ou mudança? Elmano tentará apresentar sua candidatura como continuidade de um projeto iniciado com Camilo e integrado ao governo Lula.
Ciro tentará convencer o eleitor de que o Ceará precisa mudar de direção. Essa disputa de narrativas será decisiva.
O interior do Ceará
O grande problema de Ciro: o interior do Ceará. Existe uma questão estratégica que não pode ser ignorada. Fortaleza não decide sozinha uma eleição para governador. Ciro possui forte presença eleitoral na capital, mas precisa transformar essa força em uma votação competitiva no interior.
Em 2022, Capitão Wagner mostrou que uma candidatura pode ter desempenho expressivo em Fortaleza e ainda assim não conseguir vencer o Estado. O interior continua sendo decisivo.
E é justamente aí que Elmano possui uma estrutura política considerável. Prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais e lideranças regionais podem fazer diferença. No Cariri, por exemplo, a eleição deverá ser particularmente importante. O grupo governista possui lideranças fortes na região, enquanto a oposição tenta ampliar seu espaço. Para Ciro, conquistar prefeitos e lideranças do interior será fundamental.
No fundo, será uma disputa entre dois modelos. De um lado, Ciro promete mudança e tenta reunir uma frente ampla contra o PT. Do outro, Elmano oferece continuidade, Lula, obras, estrutura governamental e a força política do grupo que domina o Ceará há mais de uma década. E há uma variável decisiva: o eleitor cearense ainda não parece ter escolhido definitivamente entre esses dois caminhos. A eleição de 2026 será decidida quando a força das pesquisas encontrar a força dos palanques. E, nesse momento, a corrida está aberta. E está apenas começando.