
Imagem ilustrativa: Desenvolvido com IA (Chat GPT)

Por Francisco Filho
Todos acreditam possuir opiniões próprias e escolhas conscientes. Mas, em uma sociedade marcada pelas redes sociais, pela polarização política e pelo excesso de informação, surge uma pergunta inevitável: quem está moldando você?
A identidade humana não nasce pronta. Ela é construída pelos ambientes sociais, culturais e políticos que influenciam comportamentos, desejos e formas de pensar. Hoje, essa influência acontece de maneira rápida, silenciosa e constante.
As redes sociais transformaram o reconhecimento em necessidade permanente. Likes, comentários e aprovação digital passaram a funcionar como mecanismos de validação pessoal. Nesse cenário, Jacques Lacan ajuda a compreender como a identidade depende do olhar do outro e da linguagem.
Para Lacan, ninguém se constrói sozinho. O sujeito busca reconhecimento social para confirmar sua própria existência. Na era digital, porém, esse reconhecimento passou a ser mediado por algoritmos, tendências e padrões de consumo.
A identidade deixa de ser descoberta para ser performada. O indivíduo aprende a adaptar comportamentos, opiniões e desejos para corresponder às expectativas do ambiente virtual.
Já Mikhail Bakhtin entende a identidade como resultado do diálogo social. Toda fala carrega influências externas. Ninguém fala isoladamente; respondemos continuamente aos discursos políticos, culturais e ideológicos que circulam ao nosso redor.
Essa reflexão ajuda a entender fenômenos atuais como fake news, radicalização política e bolhas ideológicas. Os ambientes digitais deixaram de ser apenas espaços de comunicação.
Tornaram-se estruturas que repetem narrativas e limitam o pensamento crítico.
Muitas vezes, o indivíduo acredita estar defendendo uma opinião própria quando apenas reproduz discursos previamente moldados por grupos, mídias ou interesses políticos.
Embora partam de perspectivas diferentes, Lacan e Bakhtin chegam a um ponto semelhante: o sujeito é profundamente influenciado pela linguagem e pelas relações sociais.
No cenário contemporâneo, essa influência tornou-se ainda mais intensa. O mercado define desejos. A política organiza inimigos. Os algoritmos selecionam o que será visto. E, pouco a pouco, a identidade humana passa a ser condicionada por forças externas quase invisíveis.
Por isso, refletir sobre quem está moldando você tornou-se uma necessidade urgente.
Desenvolver consciência crítica talvez seja uma das últimas formas de preservar a autonomia do pensamento em tempos de manipulação simbólica e influência digital permanente.
No fim, a grande questão não é apenas o que você pensa — mas quem ensinou você a pensar dessa maneira.
Referências: Escritos — Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.| Marxismo e Filosofia da Linguagem — São Paulo:
Hucitec, 2006. | Estética da Criação Verbal — São Paulo: Martins Fontes, 2011.