
COLUNA O VERBO FEMININO
POR ÍRIS TAVARES
Salve a Chapada do Araripe – Em defesa da nossa ancestralidade
Ao longo do processo histórico da humanidade, surgiu o sistema capitalista ancorado no modo de produção baseado na propriedade privada dos meios de produção, trabalho assalariado e busca por lucro e acumulação de riquezas materiais e naturais. É uma cultura que escraviza, subordina, exclui e se utiliza de várias narrativas, a partir dos desejos humanos e consegue distorcer a mente e o coração das pessoas escravizadas que alimentam a sociedade de consumo. Ailton Krenak, autor do livro “A vida não é útil”, foi muito feliz na descrição do seu texto “Não se come dinheiro”, onde afirma: “Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, o ser humano, ou melhor, esse clube seleto da humanidade, vem devastando tudo ao seu redor”. É a pura verdade, não é?
O rastro de destruição está presente em todas as regiões do planeta terra, afinal o capitalismo tem seu próprio comando e uma fábrica de encantos para entorpecer e dominar qualquer um que se coloque no seu caminho. Consegue vergar os poderes, por meio dos mandatários e o seu império parece inquebrantável. São verdadeiros exércitos sempre de plantão com gana de poder, agindo aqui e acolá, pelo agronegócio, pela bolsa de valores, pela especulação imobiliária, pelo maldito latifúndio que nos cerca. Eles não se contentaram em dizimar os povos originários, inclusive os que habitavam a Chapada do Araripe. Precisamos resgatar a nossa identidade Kariris, porque o nosso território nos pertence e não vamos aceitar as ameaças. Queremos sim o desenvolvimento pleno com justiça social, sem o racismo ambiental. Defendemos iniciativas como os campos de agroflorestas, o ecoturismo, a economia solidaria e agroecologia, a vida em abundancia e livre dos vícios, pois temos direito de viver o presente e o futuro da nossa ancestralidade.
Para além de tudo que já foi dito, o nosso território mantém a primeira floresta nacional do Brasil com seus saberes populares, unindo natureza e cultura como patrimônio da humanidade, e, atualmente abriga o primeiro Geoparque das Américas reconhecido pela UNESCO. A sua biodiversidade é de uma riqueza extraordinária, pois acolhe áreas de Caatinga, Cerrado e resquícios de Mata Atlântica com abrangência na Flona Araripe-Apodi, indispensável para o equilíbrio hídrico do nordeste brasileiro. Temos um dos principais depósitos fossilíferos do mundo, com fósseis bem preservados de dinossauros e peixes de 120 milhões de anos.
Somamos as preocupações ao considerar a aquisição de 30 mil hectares de terra para o agronegócio, associado ao capital internacional, com perspectiva de alcançar 100 mil hectares. Podemos imaginar a quebra de braço e a pressão que o governo do Estado padece. Por isso defender a Chapada do Araripe dos predadores e da selvageria do capitalismo requer a presença das lideranças e dos populares, aqueles que são os verdadeiros guardiões do nosso patrimônio natural, assim como da academia e da comunidade cientifica que estuda/pesquisa esse território que representa a “Esponja Geológica”, a “Caixa d’água do Sertão”, o único habitat do Soldadinho do Araripe.
O Relatório Anual de Desmatamento de 2024 (RAD) do MapBiomas, a Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe está citada como a terceira mais desmatada do país, com o dano de 5.965 hectares. Precisamos nos unir, arregimentar forças nesse “cabo de guerra”, onde a inteligência e a estratégia são fundamentais. Salve a Chapa do Araripe!