
COLUNA O VERBO FEMININO
POR ÍRIS TAVARES
Josenir Lacerda e a bela despertada
(Vozes que romperam o silêncio)
O patriarcado é uma herança maldita plantada desde a antiguidade e que, ainda, perdura nos dias atuais. A Europa foi profundamente marcada por essa prática virulenta e predatória que assola a humanidade em todos os tempos. Considerando a importante contribuição do escritor e educador tcheco Jan Amos Comenius autor de “O Mundo Visível em Imagens”, o primeiro livro infantil publicado no mundo em 1658. Uma obra que utilizava xilogravuras para ensinar conceitos básicos a crianças, foi fundamental para o desenvolvimento da literatura infantil no continente.
A literatura infantil é um conjunto de obras escritas por adultos que pensam e agem como tais, por mais que tentem se desvincular da sua natureza adulta, ela permanece ali. A sombra adulta está presente na literatura infantil que a fez recheada de um imaginário e simbolismo que bebem na fonte do medievo e na Terra do Nunca. Lugares povoados de medo e adornados de magia e de onde não conseguimos nos libertar. A versão que é contada e recontada, século após século, desde as alcovas palacianas, as casas dos senhores feudais, os casebres, as torres de pedra, as casas de campo, as palafitas, os apartamentos, as ocupações, os assentamentos, as escolas públicas e privadas.
São nesses ambientes onde se perpetuam essas histórias de rei e rainha, príncipe e princesa, bruxas e feiticeiras que constituem os personagens de Era Uma Vez. Contudo o enredo é sempre o mesmo, fácil de assimilar, além de encantar o pensamento mais dócil e afetuoso de uma criança, afinal o fim é a glória e a felicidade da mais inocente e bela, entre todas as criaturas, que é salva pelo rei-príncipe-herói. E assim foram felizes para sempre.
O cordel de autoria da nossa Mestra da Cultura, Josenir Lacerda, publicado em setembro de 2024, com o título “A voz que rompe o silêncio ou A BELA DESPERTADA”, traduz todas as nossas inquietações e reflexões referentes a essas narrativas ditas clássicas. E lá vem a voz da nossa mestra desmistificar. “Surge um conto sem reinado / Sem bruxa ou fada madrinha / Princesa, ninfa e rainha / Ou lindo cavalo alado / Não tem príncipe encantado / Pra desfazer o entrave / Somente frágil segredo / Que gera os grilhões do medo”.
Mais não fica por aí e vai tecendo verdades. “Já fui grito prisioneiro / Entre as dobras do gemido / Fui o soluço escondido / Sem rumo, sem paradeiro / Hoje traço o meu roteiro / Não abro mão de sonhar / Tenho força em meu cantar / Reconheço o meu espaço / Recuso prisão e laço / Sou cônscia do meu lugar.”
Nossa gratidão feminista e ecossocialista a nossa Mestra Josenir Lacerda. E a nossa humilde recomendação aos gestores da Secretaria de Educação do Estado do Ceará – SEDUC, para encampar esse acervo e tantos outros que educam e ensinam nos moldes da educação popular freiriana transformar com consciência e saber a mais dura realidade que se chama desigualdade de gênero e violência contra a mulher.