
COLUNA NORDESTINADOS A LER
POR LUCIANA BESSA
Lutas e Metamorfoses de uma Mulher
Uma amiga (Crislay) disse que acabara de ler a obra Monique se Liberta (2024), do escritor francês Édouard Louis. Um ano depois, cá estou afetada pela escrita desse escorpiano que usou a literatura como vingança contra todas as formas de violência que sofreu na infância e na adolescência.
Se é verdade que se leem livros pela capa, eu li pelo título: Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2023). Comecei por essa obra, porque dificilmente uma mulher, independentemente das condições sociais que esteja inserida (algumas mais), brasileira ou francesa, não lute por sua sobrevivência, em meio a uma sociedade que insiste em esteriotipar, limitar, até mesmo matar o gênero feminino.
Embora tenha adorado o título, confesso que senti um certo receio também: afinal, é um homem escrevendo sobre as dores e delícias de uma mulher. Mas o que me cativou foi o fato de o autor não explicar ou justificar nada, mas expor suas dores, suas mágoas, seus ressentimentos em relação a uma mulher prisioneira dos estigmas sociais e de um homem – o próprio marido.
Lutas e Metamorfoses de uma Mulher é a história de Monique, silenciada, humilhada e violentada duas vezes pela masculinidade tóxica. É o retrato da de uma mãe, que viveu em um contexto de desestruturação familiar, pobreza, vícios e os reproduziu para os filhos. Entre altos e baixos, é uma narrativa de distanciamento e aproximação entre mãe-filho.
O narrador toma como ponto de partida uma fotografia que ele encontrou da mãe dele. Diante da imagem surge a afirmação-pergunta: “Eu tinha me esquecido acho, de que ela era livre antes do meu nascimento – feliz?”.
Raramente, nós, filhos/filhas pensamos em nossas genitoras enquanto mulheres com desejos, sonhos, limitações e traumas. Há uma “romantização da maternidade” que reduz a mulher ao papel de cuidadora.
Ser mãe é retratado como uma entidade em si mesma. É como se a mulher passasse por portal e tudo o que ela viveu antes da maternidade desaparecesse como num passe de mágica.
A foto de Monique é o gatilho para que o narrador, filho, pense nela, antes do nascimento dele, como uma mulher “forçosamente jovem e cheia de sonhos”. A imagem, no entanto, o remete aos anos em que a mãe vivia com o pai dele, “as humilhações impostas por ele, a pobreza”, ou seja, vinte anos “mutilados e quase destruídos pela violência masculina e pela miséria”.
A imagem da mãe com seu corpo projetado para o futuro, o fez se dá conta que, os vinte anos perdidos por ela não foi algo natural, tudo o que aconteceu foi resultado de forças externas a ela – “a sociedade, a masculinidade, (seu) meu pai – e, que, portanto, as coisas poderiam ter sido diferentes”. Como se não bastasse, ele também foi um dos “atores dessa destruição”.
Como violência gera violência, o narrador conta-nos que durante os primeiros anos de vida dele, tinha medo que a própria mãe o conhecesse. Por isso, na escola escondia os convites das reuniões para que ela não participasse. No fim do ano, nos espetáculos no salão de eventos da cidade com peças musicais e coreografias, ele fazia de tudo para garantir a ausência dela. Até mesmo nos filmes a que ele assistia, os filhos esperam ansiosamente ver os pais em suas apresentações, ao que ele conclui que viveu sua infância “ao contrário”.
Ele não queria que a mãe soubesse que na escola ninguém queria ser amigo dele, pois ele era “tido como viado”. Ele não queria que ela soubesse que várias vezes por semana dois meninos o espancavam, cuspiam na sua cara e perguntavam: “É verdade que você é uma bichinha”.
Ele não queria que a mãe soubesse que aos nove, dez anos, ele já conhecia o gosto “da melancolia e do desespero” e, que envelheceu precocemente, por causa desses sentimentos.
Ele não queria que a mãe soubesse que todo dia ele se levantava com as perguntas:
“por que eu era a pessoa que era?
Por que tinha nascido com aqueles trejeitos de menina, aqueles trejeitos que os outros identificavam, e estavam certos como a prova da minha anormalidade?
Por que eu tinha nascido com aquele desejo por outros meninos e não por meninas, como meu pai e meus irmãos? Por que eu não era outra pessoa?”
Anos depois, no meio de uma briga, Édouard joga na cara da mãe: “detestei minha infância”. Ela, espantada, olha para ele e diz: “ Mas você sorria o tempo todo”. Há um ditado que diz: “Quem vê cara não vê coração”, por isso, o narrador fala: “As primeiras páginas dessa história poderiam se chamar: Luta de um filho para não se tornar filho”.
Ao contar a história da mãe, Édouard conta a história dele. Quando Monique se liberta do primeiro marido, Édouard também se liberta. No entanto, ela se deixa aprissionar novamente. É só aos 45 anos, quando decide abandonar o segundo marido, pôde dizer: “Pronto. Eu consegui”.
Lutas e Metamorfoses de uma Mulher não tem a ver com um filho famoso que faz uma homenagem para a mãe, mas sobre a fragilidade das relações humanas: esgarçam-se e reconstroem-se.
Partindo do contexto da pobreza, da violência e da homofobia, Édouard Louis constrói uma literatura crua, incisiva e forte capaz de causar mal-estar leitor/a leitora. Mostra-nos que a violência que mata é a mesma que gera transformação pessoal e social. Comecei a ler o livro apreensiva e terminei reflexiva: “as coisas poderiam ter sido diferentes” para minha mãe.