Editorial Notícia

O preço do projeto bolsonarista pode recair sobre aposentados, trabalhadores e serviços públicos

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Duas reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo, com informações atribuídas a discussões internas da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), reacenderam o alerta sobre os rumos da política econômica brasileira em caso de vitória do candidato nas eleições presidenciais de 2026. O debate envolve o reajuste das aposentadorias, a política de valorização do salário mínimo e possíveis mudanças no financiamento da saúde e da educação.

Não se trata de uma discussão meramente contábil. Estamos falando de direitos sociais, renda dos trabalhadores, poder de compra dos aposentados e capacidade do Estado de garantir serviços públicos à população. Quando se anuncia a necessidade de cortes para atender às exigências do mercado financeiro, é legítimo perguntar: quem pagará essa conta? No caso do Brasil, já sabemos que quem paga é o povo, o trabalhador.

A preocupação central é que um eventual ajuste fiscal possa atingir mecanismos de proteção social construídos ao longo de décadas. Entre as possibilidades discutidas está a mudança das regras de crescimento de determinadas despesas, com limites que podem restringir a expansão real dos recursos destinados a políticas públicas. No caso do salário mínimo e das aposentadorias, qualquer alteração precisa ser examinada com atenção, porque seus efeitos ultrapassam os contracheques e chegam à economia dos municípios, ao comércio e ao consumo das famílias.

O salário mínimo não é apenas uma referência para a remuneração de milhões de trabalhadores. Ele também influencia benefícios previdenciários e assistenciais. Sua valorização real, quando o reajuste supera a inflação, contribui para ampliar o poder de compra da população. Abandonar essa política ou restringir seus efeitos teria consequências que precisam ser explicitadas antes de qualquer decisão eleitoral.

O Brasil conhece os efeitos de políticas econômicas que colocam o ajuste fiscal acima das necessidades sociais. Isso o ex-presidente Jair Bolsonaro foi pródigo em fazer. Cortar despesas pode ser apresentado como uma solução simples para equilibrar as contas públicas, mas a questão fundamental é definir quais gastos serão reduzidos, quem será atingido e quais interesses serão preservados.

O debate não pode ser conduzido apenas pela linguagem técnica do mercado. Saúde, educação, Previdência e assistência social não são privilégios concedidos por governos. São direitos assegurados pela Constituição e instrumentos fundamentais para enfrentar a desigualdade brasileira.

É preciso reconhecer que o equilíbrio fiscal importa. O Estado precisa administrar suas receitas e despesas com responsabilidade. Mas responsabilidade fiscal não significa, necessariamente, retirar recursos de quem mais depende dos serviços públicos. Há uma diferença decisiva entre combater desperdícios, rever benefícios indevidos e reorganizar a administração e, de outro lado, reduzir a capacidade de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), limitar investimentos educacionais ou enfraquecer a renda de aposentados.

É justamente essa distinção que a sociedade precisa exigir dos candidatos à Presidência.

O debate também precisa considerar a trajetória política do bolsonarismo. Jair Bolsonaro e seus aliados sustentaram, em diferentes momentos, posições favoráveis à flexibilização das relações de trabalho, à redução da intervenção estatal e a mudanças nas estruturas de proteção social. A oposição a determinadas regras trabalhistas, a críticas à Justiça do Trabalho e a questionamentos sobre programas sociais integra parte desse histórico político.

Isso não significa que toda proposta de reorganização administrativa resulte automaticamente na retirada de direitos. Significa, porém, que as propostas concretas precisam ser avaliadas à luz de seus efeitos e da trajetória de quem as apresenta.

A retórica de combate aos gastos públicos pode esconder escolhas políticas muito diferentes. Uma coisa é eliminar desperdícios e melhorar a eficiência administrativa. Outra é tratar direitos trabalhistas, benefícios sociais e políticas de inclusão como obstáculos ao funcionamento da economia com vem sendo feito há muito tempo.

Programas de transferência de renda, políticas de acesso à educação e serviços públicos de saúde não são esmolas. São instrumentos de proteção social e de redução das desigualdades. Para milhões de brasileiros, representam a diferença entre a insegurança alimentar e a possibilidade de colocar comida na mesa, entre abandonar os estudos e permanecer na escola, entre não ter atendimento médico e receber assistência.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/2020, conhecida como reforma administrativa, tornou-se um dos principais exemplos do conflito sobre o papel do Estado. Apresentada durante o governo Jair Bolsonaro, a proposta abriu uma discussão sobre mudanças nas regras de contratação, avaliação e organização do serviço público.

Seus críticos apontam riscos de precarização dos vínculos de trabalho, enfraquecimento da estabilidade em determinadas carreiras e ampliação de espaços para contratações sem concurso em algumas situações. Também alertam para a possibilidade de perda de capacidade técnica do Estado e de maior vulnerabilidade dos serviços públicos às pressões políticas.

O ponto essencial é que a administração pública não existe apenas para atender às exigências de eficiência de empresas ou investidores ou dos poderosos de plantão com altos negócios e ligações com o chamado mercado. Ela também precisa garantir direitos, fiscalizar atividades econômicas, executar políticas públicas e atender à população, inclusive onde não há lucro privado.

As informações atribuídas às discussões internas da campanha de Flávio Bolsonaro exigem respostas claras. O candidato precisa explicar quais despesas pretende cortar, se pretende modificar a política de valorização do salário mínimo, quais seriam as regras para os reajustes das aposentadorias e como pretende financiar saúde e educação.

Não basta negar genericamente a intenção de retirar direitos. É necessário apresentar propostas, estimativas, mecanismos de execução e os efeitos esperados sobre a vida dos brasileiros.

Movimentos sociais, sindicatos, entidades estudantis e organizações da sociedade civil têm razões legítimas para acompanhar esse debate. A mobilização democrática não deve substituir a análise dos fatos, mas pode exigir transparência, cobrar compromissos e impedir que mudanças de grande alcance sejam apresentadas à população sem explicações suficientes.

A eleição presidencial não pode se resumir a slogans, ataques entre adversários ou promessas genéricas de eficiência. O eleitor precisa saber o que cada projeto de governo pretende fazer com o salário, a aposentadoria, a escola pública, o SUS e os direitos trabalhistas.

O povo brasileiro quer saber como vai ficar o salário mínimo, o preço dos alimentos, as verbas para as universidades, os investimentos em infraestrutura, cultura, no desenvolvimento econômico e na geração de emprego e renda da população.

O Brasil não pode tratar a retirada de direitos como uma consequência inevitável da responsabilidade fiscal. Existem escolhas políticas, prioridades orçamentárias e alternativas de arrecadação que precisam ser discutidas publicamente.

O povo brasileiro precisa estar atento às prioridades de quem pretende governar o país. Afinal, uma democracia se fortalece quando a população conhece as propostas em disputa e pode decidir, com informação, quais caminhos deseja para o futuro nacional.