31 de agosto de 2026
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Primeira escola indígena em tempo integral do Cariri é oficialmente inaugurada em Brejo Santo. — Foto: Darlene Barbosa.

 

A cerca de 20 quilômetros do centro de Brejo Santo, no sítio Queimadas, comunidade rural de Baixio dos Bastos, vive o povo Isú-Kariri. O grupo, formado por cerca de 20 famílias, estabeleceu residência no local no início da década de 1990. Hoje, vive o desafio diário de alinhar as tradições ancestrais às transformações do mundo contemporâneo. Há 2 anos, a comunidade recebeu a a primeira e única Escola Indígena do Cariri, inaugurada oficialmente neste mês de agosto.

Se antes os encontros entre os mestres da cultura ocorriam apenas no território comunitário, agora os saberes tradicionais ganharam as salas de aula. A unidade de ensino atende quase 90 alunos em formato de tempo integral.

➡️ A palavra Isú-Kariri faz referência ao local de origem e significa “fogo” na língua Kariri.

Semanalmente, os mestres Isú-Kariri visitam os estudantes para ensinar sobre plantas medicinais, ciências da natureza, artesanato e histórias ancestrais.

“A criação da escola representa a valorização do povo que vive nesse território e uma reparação histórica. A partir das vivências pedagógicas, essa cultura permanece viva, respeitada e valorizada”, pontua o secretário de Educação de Brejo Santo, David Júnior.

A diretora da instituição, Cícera Pereira (conhecida como Simone), ressalta que a rotina escolar é voltada ao fortalecimento da identidade indígena. “Começamos o dia com o canto dos nossos ancestrais. Ensinamos a confecção de artesanatos, como o cocar de palha de bananeira, feito pela mestra Tia Toinha. A escola não se limita ao prédio físico: ela vai até o quintal dos pais, e os mestres vêm até nós”, explica.

Revitalização da língua Dzubukuá-kipeá

Um dos maiores desafios do projeto pedagógico é a revitalização da Dzubukuá-kipeá, língua nativa do povo Isú-Kariri. Cícera Pereira leciona o idioma, trabalhando o vocabulário de forma integrada ao português.

“Não é apenas aprender o vocabulário seco, mas passar uma vivência para que utilizem a língua no dia a dia. Trazemos de volta palavras que foram proibidas no passado. Poder falar nossa língua nativa é uma força para nossa gente”, afirma Cícera.

A estruturação física e pedagógica da escola contou com a colaboração de diversos órgãos, com destaque para a Universidade Federal do Cariri (UFCA). A instituição atuou na elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP), na produção de material didático específico e na formação continuada dos professores.

O professor da UFCA Wiu Kurryra, especialista em Educação para as Relações Étnico-raciais e pertencente ao povo Xukuru de Ororubá (PE), acompanhou o processo de perto. Ele lembra que a Educação Escolar Indígena é um direito garantido pela Constituição Federal de 1988 e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).

“Essa modalidade é específica, diferenciada, intercultural, comunitária e bilíngue. Discutimos com a própria comunidade quais conhecimentos do seu povo deveriam estar presentes na escola e de que maneira seriam ensinados. A UFCA tem sido parceira da Associação Isú-Kariri no fortalecimento das condições para que o povo acesse seus direitos”, explica o docente.

FONTE: G1

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