
Imagem: Reprodução
Quando o Cariri celebra, não se reúne apenas para assistir a um espetáculo. Em ruas, praças, igrejas e parques, a região reafirma uma identidade construída por fé, música, dança, trabalho e memória. As festas populares pertencem às comunidades que as mantêm vivas e, por isso, precisam ser tratadas como política pública permanente, e não apenas como datas em um calendário de eventos.
A semana desta edição oferece um retrato claro dessa força. No Crato, o Cortejo Cultural da ExpoCrato 2026 reuniu cerca de 600 brincantes, mestres e grupos tradicionais. Em Juazeiro do Norte, a Romaria pelos 92 anos de falecimento do Padre Cícero, entre 17 e 20 de julho, volta a mobilizar romeiros, comunidades religiosas, comerciantes e serviços. São acontecimentos diferentes, mas unidos pela capacidade de transformar o espaço público em lugar de encontro e pertencimento.
Esse patrimônio não cabe em um único palco. Está na Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha, reconhecida pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2015; nos reisados, quadrilhas, bandas cabaçais, lapinhas e grupos de tradição; na devoção dos romeiros; na poesia de Patativa do Assaré; na música, no artesanato e na culinária que atravessam gerações. O Cariri se reconhece nessa diversidade e nela encontra uma das suas maiores riquezas.
Também há uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. Festas bem organizadas movimentam hotéis, pousadas, restaurantes, transportes e comércio. Abrem espaço para ambulantes, artesãos, produtores rurais, costureiras, músicos, técnicos e pequenos empreendedores. A renda circula e alcança famílias que nem sempre aparecem nos grandes anúncios. Valorizar a cultura popular, portanto, é também apoiar trabalho e desenvolvimento regional.

Festa popular não é decoração de calendário: é patrimônio, trabalho e direito à memória.
Mas o crescimento dos eventos traz uma responsabilidade. A programação de grandes shows não pode apagar os mestres, os brincantes e os grupos que deram sentido às celebrações. Não basta montar palcos, divulgar números e procurar a melhor fotografia. É preciso garantir contratação transparente, remuneração justa e pagamento em dia, além de condições dignas de apresentação. Cultura popular não pode servir apenas de cenário para promoção política ou comercial.
O poder público deve planejar segurança, mobilidade, limpeza, acessibilidade, saúde e acolhimento, com atenção especial aos romeiros, idosos, pessoas com deficiência e trabalhadores informais. Também deve ouvir quem faz a festa. Mestres da cultura, comunidades religiosas, associações, pesquisadores e moradores precisam participar das decisões sobre percurso, horários, ocupação das ruas, proteção ambiental e uso dos recursos públicos.
A salvaguarda, por sua vez, não termina quando a bandeira é arriada ou o último palco é desmontado. Ela exige oficinas, documentação, acervos, apoio aos grupos durante todo o ano e presença nas escolas. Crianças e jovens precisam conhecer não apenas o nome das festas, mas as histórias, os ofícios, os ritmos e os valores comunitários que lhes dão vida. Sem transmissão entre gerações, tradição vira lembrança.
O Cariri tem condições de transformar seu calendário popular em uma política regional de cultura, turismo e desenvolvimento, com cooperação entre municípios e respeito às particularidades de cada comunidade. Esta é a posição deste jornal: celebrar é importante, mas cuidar é indispensável. Defender as festas populares é defender o povo que faz o Cariri ser reconhecido muito além de suas fronteiras.
Com informações do Jornal Leia Sempre Brasil