
O Dia dos Namorados chegou. As redes sociais se enchem de declarações apaixonadas, fotografias cuidadosamente produzidas e promessas de amor eterno. É bonito de ver. Contudo, a data também convida a uma reflexão menos romântica e mais necessária: o que sustenta um relacionamento quando as flores murcham, as fotos desaparecem da timeline e a rotina volta a ocupar seu lugar?
Vivemos uma época curiosa. Nunca foi tão fácil conhecer pessoas e tão difícil construir uma história com elas. Há aplicativos para criar conexões em segundos, mas nenhum capaz de ensinar paciência, diálogo ou compromisso.
Em parte, isso acontece porque passamos a enxergar o amor como uma fonte permanente de emoções positivas. Espera-se que ele seja intenso, emocionante e satisfatório o tempo inteiro. Assim, quando surgem conflitos, diferenças ou frustrações, muitos concluem que o amor acabou. Na maioria das vezes, porém, não foi o amor que terminou — foi apenas a fantasia.
Por isso, o verdadeiro significado desta data não está nos presentes, nos jantares ou nas declarações públicas. Tudo isso tem seu valor. Entretanto, o amor costuma revelar sua força longe dos holofotes: na conversa que evita o afastamento, na paciência diante das diferenças e na decisão de permanecer quando seria mais confortável desistir.
Curiosamente, a Bíblia parece mais realista sobre o amor do que boa parte dos conselhos sentimentais produzidos na era digital. Em Cântico dos Cânticos, lemos: “As muitas águas não podem apagar o amor, nem os rios afogá-lo” (Ct 8:7). O texto não promete uma relação livre de dificuldades. Pelo contrário, reconhece as tempestades e afirma que existe um amor capaz de atravessá-las.
Séculos depois, Luís de Camões expressaria percepção semelhante ao escrever: “Amor é fogo que arde sem se ver.” O verso permanece atual porque recorda uma verdade frequentemente esquecida: o amor mais profundo nem sempre é o mais visível. Muitas vezes, ele se manifesta na permanência silenciosa de quem escolhe continuar.
Essa compreensão contrasta com a lógica do descarte que marca nosso tempo. Acostumamo-nos a substituir objetos quando deixam de atender às expectativas. Consequentemente, passamos a fazer o mesmo com os relacionamentos. Se exige esforço, abandona-se. Se decepciona, troca-se. Se surgem dificuldades, procura-se uma nova alternativa. Como se os afetos modernos viessem acompanhados de uma política de troca e devolução.
O problema é que relacionamentos não possuem garantia estendida. Quando surgem defeitos, a única alternativa é aprender a repará-los.
Amar alguém por muitos anos não significa encontrar a pessoa perfeita. Significa descobrir que ela não é perfeita, reconhecer as próprias imperfeições e, apesar disso, continuar escolhendo caminhar juntos. O que, convenhamos, exige muito mais caráter do que paixão.
Neste Dia dos Namorados, portanto, talvez a maior celebração não seja a do amor idealizado, mas a do amor real. Aquele que sobrevive à rotina, aos desacordos, ao tempo e às inevitáveis imperfeições humanas. Afinal, sentir é importante. Permanecer, porém, é o que transforma um sentimento em história.
Talvez o amor verdadeiro tenha se tornado raro pela mesma razão que se tornou valioso: ele exige permanência numa época apaixonada pelo descarte. E, num mundo que ensina a substituir, continuar escolhendo a mesma pessoa não é apenas uma prova de amor — é uma forma silenciosa de resistência.