5 de junho de 2026
p.4 - O tiro no pé do bolsonarismo

Ilustração do mestre Aroeira

EDITORIAL do jornal Leia Sempre Brasil

 

A comemoração de setores do bolsonarismo após a decisão dos Estados Unidos de classificar facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas revela uma contradição que pode custar caro ao próprio Brasil. Sem falar agora nas novas taxações do governo Donaldo Trump contra setores econômicos no Brasil. O que foi apresentado por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro como uma vitória política contra o crime organizado pode, na prática, abrir espaço para consequências econômicas e diplomáticas que atingem empresas, bancos e até a soberania nacional.

A legislação antiterrorismo norte-americana concede ao governo dos Estados Unidos instrumentos muito mais amplos do que aqueles utilizados no combate ao crime organizado convencional. A partir dessa classificação, autoridades americanas passam a ter maior liberdade para investigar fluxos financeiros, aplicar sanções e impor restrições a pessoas físicas e jurídicas que, direta ou indiretamente, sejam consideradas ligadas a organizações enquadradas como terroristas.

O problema surge justamente porque as facções criminosas brasileiras infiltraram-se ao longo dos anos em diversos setores da economia. Investigações apontam a utilização de empresas de fachada, negócios aparentemente legais e operações financeiras complexas para lavagem de dinheiro. Em um cenário de endurecimento das regras internacionais, instituições financeiras e empresas brasileiras podem ser submetidas a um escrutínio ainda maior por parte de órgãos americanos.

Não se trata de defender criminosos. O combate ao PCC e ao Comando Vermelho é uma necessidade permanente do Estado brasileiro. A questão central é outra: ao estimular a intervenção de uma potência estrangeira sobre um problema que deve ser enfrentado pelas instituições nacionais, parte da direita brasileira parece ignorar os efeitos colaterais dessa estratégia.

O discurso de celebração parte da premissa de que apenas traficantes e integrantes dessas organizações serão atingidos. A realidade é mais complexa. Bancos brasileiros que operam no mercado internacional, empresas exportadoras, companhias com negócios nos Estados Unidos e até investidores podem enfrentar exigências adicionais de compliance, auditorias e monitoramento financeiro. Dependendo da interpretação das autoridades americanas, o alcance das medidas pode ultrapassar o universo estritamente criminal.

Há ainda uma questão de soberania. Durante décadas, o bolsonarismo construiu sua narrativa em torno da defesa dos interesses nacionais e da rejeição a interferências externas. Agora, porém, esse mesmo grupo celebra uma medida que amplia o poder de órgãos estrangeiros sobre questões internas do Brasil. É uma postura que soa contraditória para quem se apresenta como defensor da independência nacional.

É uma postura na verdade de traição aos interesses e à soberania nacional do Brasil. O bolsonarismo se revela como um grupo de apoio dos interesses escusos do governo norte-americano em nosso país, e não como um grupo patriota, como eles acreditam que o povo acredita que eles sejam. Não são. O bolsonarismo se apresenta no momento atual como os verdadeiros traidores da pátria.

É bom reafirmar que o combate ao crime organizado exige cooperação internacional, inteligência policial e fortalecimento das instituições brasileiras. Mas uma coisa é cooperar; outra é estimular mecanismos que podem resultar em sanções econômicas, constrangimentos diplomáticos e impactos sobre setores produtivos do país, como o agronegócio e o sistema financeiro nacional.

Ao transformar uma questão complexa em bandeira ideológica, o bolsonarismo corre o risco de descobrir que a medida celebrada como vitória pode se converter em um problema para a economia brasileira. E, nesse caso, o prejuízo não recairá sobre políticos ou partidos, mas sobre empresas, trabalhadores e o próprio país.

Se confirmados os efeitos mais amplos da classificação, a euforia de hoje poderá ser lembrada no futuro como um dos mais claros exemplos de um movimento político que, ao tentar atingir adversários, acabou contribuindo para criar dificuldades para o Brasil que afirma defender.

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