5 de junho de 2026
p.6 - O tempo presente é matéria poética para Clarice Freire

COLUNA NORDESTINADOS A LER

POR LUCIANA BESSA

 

Se num dia qualquer da semana, você acordasse com metade da sua idade, como se sentiria?

Se você olhasse para o espelho e se deparasse com a juventude e a beleza de outrora restabelecidas, como reagiria?

Se você tivesse a oportunidade de ficar frente a frente com o Tempo, para uns “um dos deuses mais lindos”, para outros o cruel “compositor dos destinos”, como você se comportaria ?

Em Para não acabar tão cedo, lançado em 2024 e já na quinta edição, da escritora pernambucana Clarice Freire, o Tempo, que  a autora passou seis longos anos “procurando [seu] meu narrador. Achei”, é a voz que nos apresenta a história das irmãs, Augusta e Lia, mulheres 60+, que dormem idosas e acordam com metade de suas idades.

Para alguns voltar no tempo pode ser um presente; para outros pode ser um fardo. Viver o não vivido, falar o não falado, ou simplesmente aproveitar ainda mais o que já aproveitou, como é o caso de Lia, uma alma livre, é uma dádiva. Para Augusta (irmã mais velha), uma mulher presa à rotina do cuidado, é a mais completa loucura – “meu Deus, e agora?”.

Para não acabar tão cedo (2024) é uma narrativa que apresenta ao leitor a relação amorosa e conflitante entre duas mulheres em relação ao Tempo. O mais interessante na obra é que estamos diante de uma “história sobre a visão do Tempo sobre uma mulher e não a visão de uma mulher sobre o tempo”. Nós, humanos, falamos da inflexibilidade e dureza do Tempo, mas não falamos das nossas intolerâncias e asperezas.

Depois de longas conversas e muitas discordâncias, Augusta e Lia decidem sair do apartamento para (re)viverem os Recifes. Eis que o Tempo guia os leitores por linhas não lineares, ruas de tráfego intenso, “Avenida Boa Viagem”, “Rua da União” – “onde haviam vivido anteriormente com os pais”, (agora um sebo), para o restaurante anteriormente frequentado para comer arroz de polvo, para a padaria do Jairinho (falecido marido de Augusta), ou mesmo tomar um banho de mar etc. Quanto mais se conectava com o passado, mais Lia se sentia em estado de graça; Augusta, “seca”, só pensava em voltar para casa, já que não aprendeu a experienciar o carpe diem.

Na música-poema “Metade”, Oswaldo Montenegro pede “Que a arte nos aponte uma resposta/ Mesmo que ela não saiba/ E que ninguém a tente complicar/ Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer”. O simples é uma das marcas da literatura contemporânea em oposição ao excesso de informações e à exposição às telas. É exatamente isso que faz Clarice Freire: nos leva para caminhar com duas irmãs (60-30) num dia qualquer pelas ruas de Recife compartilhando as dores e as delícias de ser o que se é.

A obra traz uma epígrafe do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto: “O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite (…)” retirada da obra Os três mal-amados (1943), inspirado no poema “Quadrilha”, do gauche Carlos Drummond de Andrade.

No trecho cabralino observamos o amor não correspondido comendo tudo o que está à sua frente. Na obra freiriana, acompanhamos o Tempo levando tudo o que não se movimenta, já que nós humanos esbanjamos muitos desejos, mas “curtas são [nossas] coragens”. De tanto terceirizar a culpa para quem está ao nosso redor, neste caso o Tempo (“curto”), esgarçamos as relações e ficamos estagnados.

A obra é dedicada à “Dona Anunciada e Tia Nevinha”, inspirações para as protagonistas, à filha Sofia- “revolução de sua vida” (Clarice) – e a todos nós, irmãos escolhidos.

O sumário (dezenove capítulos) mais parece uma poesia subdividida em outras poesias: “O Tempo e o bolso do Tempo”, “Aquele rosto de hoje” (que me remete ao verso “Eu não tinha este rosto de hoje”, da Cecília Meireles), “Nascente”, “Mar”, “Ausência” (inclusive é o nome de um poema drummondiano) etc. Toda essa poeticidade é resultado dos dois livros anteriores publicados por Clarice: Pó de Lua (2014) e Pó de Lua nas Noites em Claro (2016).

Na impossibilidade de destacar todos os capítulos-poemas, chamo atenção para o primeiro “O Tempo e o bolso do Tempo”, em que o narrador se apresenta majestoso:

“O que você pensa que sou

eu ultrapasso” (…)

Eu sou um cachorro magro

lambendo um resto de domingo no chão.

Ou passarinho sem corpo, só o canto que chama a chuva. (…)

Eu sou um menino jogando pião no meio da rua, tentando segurar a

mim mesmo com as próprias mãos.

Rodopiando,

rodopiando,

caindo.

Eu sou esse menino

quando entende

que já é homem(…)

Eu sou

e estou

em tudo o que existe (…)”

Depois de uma apresentação triunfal, só resta ao leitor se deleitar pelas ruas de Recife com duas mulheres permeadas de inquietações. Para não acabar tão cedo (2024) traz à tona as memórias, os ciclos da vida, o envelhecimento, a amizade entre irmãs e, claro, a passagem do Tempo.

Ler sua obra Clarice Freire me fez lembrar em vários momentos do escritor Carlos Drummond de Andrade, meu crush e objeto literário, principalmente quando no ano de 1942, ele lançou suas Confissões de Minas: “(…) um livro em prosa escrito por um homem que sempre preferiu o verso”.

Fiquei pensando Clarice se na sétima edição (já que sete são as faces do poeta) do seu livro, você não gostaria de acrescentar uma confissão semelhante ao do autor mineiro, dado que sua narrativa é essencialmente poética, marcada por uma linguagem fluída, corrente, sinestésica e sensorial.

Eis que sigo atravessada pela obra Para não acabar tão cedo (2024),  em que Tempo sabe de tudo, só não sabe do futuro. Nós não sabemos de nada, a não ser do presente. Se é o presente que temos, que tal aproveitá-lo?

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