22 de maio de 2026
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ARTIGO ESPECIAL

Quando Até Deus Vira Conteúdo

Por Francisco Filho

A internet prometeu democratizar ideias. Em muitos casos, apenas democratizou a vaidade com iluminação boa, trilha emocional e legenda moralizante.

Hoje, não basta acreditar em Deus. É preciso transformar a fé em posicionamento, estética e performance pública. O sagrado, lentamente, deixa de ser experiência de transcendência para se tornar estratégia de pertencimento social— porque, aparentemente, até a espiritualidade agora precisa performar bem no algoritmo.

O problema não está em falar sobre fé. O problema começa quando Deus passa a funcionar como extensão do ego. Quando a religião deixa de confrontar o sujeito e passa apenas a validar emocionalmente a própria bolha. Nesse estágio, a espiritualidade perde profundidade e ganha eficiência de marketing.

Bakhtin afirmava que a linguagem nunca é neutra: toda palavra carrega valores, disputas e interesses sociais. O que chamamos de “verdade pessoal”, muitas vezes, já chega moldado pelos discursos dominantes do grupo ao qual pertencemos. Nas redes sociais, isso aparece de forma quase caricata: pessoas passam a repetir discursos espirituais prontos não porque aprofundaram a própria consciência, mas porque determinadas falas oferecem aceitação, pertencimento e aparência moralmente elevada.

Talvez por isso uma das advertências mais desconfortáveis das Escrituras continue tão atual:

> “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”

> — Mateus 15:8

A crítica bíblica não era contra a religião em si, mas contra a espiritualidade transformada em aparência pública, discurso social e validação coletiva.

E a política aprendeu rapidamente a explorar isso. Muitos líderes não utilizam símbolos religiosos para aprofundar valores espirituais, mas para produzir identificação emocional, fidelidade ideológica e blindagem moral. Deus deixa de ser princípio ético para se tornar ferramenta de marketing eleitoral — porque, em tempos de polarização, parecer ungido costuma render mais votos do que parecer competente.

Curiosamente, quanto maior a necessidade de parecer espiritualmente correto, menor costuma ser a disposição para o silêncio, para a dúvida e para o autoconfronto — justamente elementos centrais das tradições espirituais mais profundas.

Porque fé real não serve para massagear identidade.

Serve para desmontar ilusões.

Mas isso cria um pequeno problema para a cultura da performance: um Deus que confronta o ego costuma gerar menos engajamento do que um Deus que concorda com tudo o que o grupo já pensa.

E talvez seja exatamente por isso que tanta gente prefira um Deus adaptado ao feed, ao partido e à própria bolha do que uma espiritualidade capaz de transformar consciência.

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