5 de maio de 2026
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Imagem - Chapada do Araripe, no Ceará • Wikimedia Commons

 

Marco ambiental do Cariri cearense, a Floresta Nacional do Araripe-Apodi completou 80 anos no último dia 2 de maio. A data, porém, ocorre em meio a pressões crescentes sobre a Chapada do Araripe, ameaçada pela expansão de monoculturas, queimadas recorrentes e perda de vegetação nativa.

A Chapada do Araripe, um dos principais patrimônios ecológicos do Nordeste, chegou aos 80 anos de criação da Floresta Nacional do Araripe-Apodi com motivos para celebração, mas também com sinais evidentes de alerta. Criada pelo Decreto-Lei nº 9.226, de 2 de maio de 1946, a Flona Araripe-Apodi foi a primeira Floresta Nacional do Brasil e segue como referência para a conservação ambiental no Cariri.

Localizada nos municípios de Crato, Barbalha, Jardim e Santana do Cariri, a unidade abrange mais de 38 mil hectares e exerce papel decisivo na proteção de nascentes, no equilíbrio climático e na recarga hídrica da Bacia Sedimentar do Araripe. Relatório técnico do ICMBio aponta que a vegetação natural da Flona protege o solo e facilita a infiltração das águas pluviais, alimentando o aquífero do Araripe.

O aniversário foi marcado por programação institucional, mutirões de limpeza, ações educativas e debates sobre políticas públicas para a Caatinga. Em Crato, a abertura das comemorações incluiu inauguração de ecoponto, blitz educativa e mobilização ambiental no Belmonte. A Secretaria do Meio Ambiente do Ceará também destacou a importância da Flona para a biodiversidade, para o manejo sustentável dos recursos naturais e para a pesquisa científica no semiárido brasileiro.

Mas a comemoração ocorre em um cenário de tensão. A Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe, criada em 1997 e com mais de 972 mil hectares no bioma Caatinga, vem sofrendo forte pressão territorial. Dados do ICMBio mostram que a APA registrou mais de 1.500 alertas de desmatamento entre 2022 e 2025, somando mais de 12 mil hectares desmatados. Em operação recente, foram lavrados 130 autos de infração e termos de embargo, com mais de R$ 6,5 milhões em multas aplicadas e 2.280 hectares de áreas irregulares embargadas.

Um dos pontos mais sensíveis é o avanço do agronegócio sobre a Chapada. O Governo do Ceará lançou, em 2024, o projeto Algodão do Ceará e anunciou a aquisição de 3 mil hectares no município de Araripe para plantio de algodão, soja e outras culturas. A própria Secretaria do Desenvolvimento Econômico informou que investidores já haviam adquirido áreas que somavam 12.500 hectares na Chapada do Araripe, dentro de uma estratégia vinculada à produção agrícola e à logística de escoamento pelo Pecém e pela Transnordestina.

A chegada de grandes empreendimentos agrícolas levanta preocupação entre ambientalistas, pesquisadores e órgãos de controle porque altera a lógica histórica de ocupação do território. A agricultura familiar, o extrativismo sustentável e as comunidades tradicionais passam a disputar espaço com monoculturas mecanizadas, que exigem grandes áreas, uso intensivo do solo e maior demanda hídrica. Reportagem de ((o))eco, com base em dados do MapBiomas, aponta que o desmatamento na região cresceu 2.847% entre 2019 e 2024.

As queimadas são outro problema recorrente. Em outubro de 2024, o Ministério Público do Ceará abriu investigação para apurar incêndio na Chapada e cobrou atuação integrada dos órgãos responsáveis. O promotor Thiago Marques alertou que, no segundo semestre, o risco aumenta por causa do tempo mais seco e que a APA da Chapada do Araripe é uma das áreas que mais sofrem com queimadas, muitas vezes relacionadas ao desmatamento ilegal.

No mesmo período, um incêndio na Floresta Nacional do Araripe mobilizou brigadistas e bombeiros por mais de 50 horas, atingindo cerca de 140 hectares de vegetação nativa, segundo informações divulgadas à época. O episódio reforçou a vulnerabilidade da unidade diante da estiagem, da ação humana e da falta de controle sobre práticas como limpeza de terrenos com fogo.

A pressão ambiental sobre a Chapada também tem impacto direto sobre a segurança hídrica do Cariri. Conhecida como “caixa d’água do Sertão”, a região funciona como reservatório natural, alimentando fontes e nascentes que abastecem cidades e comunidades rurais. A supressão da vegetação, a compactação do solo e a conversão de áreas naturais em lavouras de larga escala reduzem a capacidade de infiltração da água e aumentam o risco de erosão, escassez hídrica e desertificação.

Aos 80 anos, portanto, a Chapada do Araripe vive uma contradição. De um lado, é celebrada como símbolo de biodiversidade, ciência, cultura e memória ambiental do Cariri. De outro, enfrenta um modelo de ocupação que pode comprometer justamente aquilo que a tornou estratégica: a água, a floresta, o clima, a fauna, a flora e as comunidades que dependem desse território.

A data não deve ser apenas comemorativa. Deve servir como cobrança pública. Proteger a Chapada do Araripe exige fiscalização permanente, aprovação e aplicação efetiva do plano de manejo da APA, controle rigoroso das autorizações de supressão vegetal, combate às queimadas e debate transparente sobre os limites da expansão agrícola em uma área ambientalmente sensível.

Celebrar os 80 anos da Floresta Nacional do Araripe é reconhecer sua importância histórica. Defender a Chapada, agora, é impedir que esse patrimônio chegue às próximas décadas com menos mata, menos água e mais conflito ambiental.

Fontes:  Câmara dos Deputados; ICMBio; Sema Ceará; Prefeitura do Crato; Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará; Ministério Público do Ceará; MapBiomas; e jornal  O Povo.

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