
No dia 3 de maio, o Crato celebra um dos episódios mais simbólicos da história política do Ceará e do Brasil: a proclamação da independência e da República feita por José Martiniano de Alencar, na Matriz de Nossa Senhora da Penha, em 1817, dentro do movimento da Revolução Pernambucana.
O gesto ocorreu em 3 de maio de 1817, quando o então religioso José Martiniano de Alencar, emissário do governo revolucionário de Pernambuco e filho de Bárbara de Alencar, subiu ao púlpito da Matriz de Nossa Senhora da Penha, no Crato, vestido de batina e roquete, para proclamar a independência e a República. O episódio, registrado por Irineu Pinheiro em Efemérides do Cariri e reproduzido em prova da URCA, relata ainda a leitura do chamado “Preciso” e a reação dos presentes, com vivas, hasteamento de bandeira branca e tiros em sinal de celebração.
A importância do ato está no seu caráter antecipador. O Crato se colocava, ainda em 1817, cinco anos antes da Independência do Brasil, em 1822, e 72 anos antes da Proclamação da República, em 1889, como palco de uma experiência política republicana no interior do Nordeste. A Prefeitura do Crato trata o episódio como marco histórico em que o município “se antecipava ao Grito da Independência e à Proclamação da República”.
A chamada República do Crato nasceu no contexto da Revolução Pernambucana de 1817, movimento de inspiração liberal, republicana e antimonárquica que se espalhou a partir de Pernambuco. No Cariri, o levante teve forte participação da família Alencar, especialmente de Bárbara de Alencar, considerada uma das principais lideranças locais. O IFCE registra que a República do Crato foi proclamada por José Martiniano de Alencar e teve curta duração, sendo lembrada como episódio pouco conhecido, mas central para compreender a participação do Cariri nas lutas políticas do século XIX.
O ato no púlpito da Sé também ajuda a explicar por que o Crato ocupa lugar singular na memória política cearense. A vila mantinha relações intensas com Pernambuco, para onde filhos de famílias influentes eram enviados para estudar, especialmente em Olinda e Recife. Foi nesse ambiente que ideias iluministas, republicanas e de contestação à monarquia ganharam força entre setores religiosos, proprietários, militares e comerciantes. O Diário do Nordeste destaca que o movimento contou com apoio ativo de religiosos católicos, razão pela qual a Revolução Pernambucana ficou conhecida também como “revolução dos padres”.
José Martiniano de Alencar não foi uma figura isolada. Filho de Bárbara de Alencar e pai do escritor José de Alencar, ele se tornaria depois deputado e senador pelo Ceará, além de permanecer associado à trajetória política do Império. O registro biográfico do Senado aponta sua atuação como senador pelo Ceará em várias legislaturas, deputado e padre, o que reforça a dimensão pública de um personagem que começou a marcar a história ainda jovem, no levante de 1817.
A memória de 3 de maio, portanto, não deve ser tratada apenas como celebração cívica local. Ela revela que o Cariri esteve conectado aos grandes debates políticos do Brasil antes mesmo da formação formal do Estado nacional independente. A cena do púlpito da Matriz do Crato é forte porque une religião, política e mobilização popular em um mesmo gesto: a palavra proclamada dentro da igreja transformada em ato de ruptura contra a ordem monárquica.
A repressão veio rapidamente. Estudos sobre o episódio apontam que o movimento foi sufocado poucos dias depois, com a prisão dos republicanos cratenses. Ainda assim, sua curta duração não diminui sua força histórica. Ao contrário: mostra que, mesmo distante dos centros administrativos da época, o Cariri produziu um dos gestos mais ousados do republicanismo brasileiro antes de 1889.
Neste 3 de maio, ao homenagear Bárbara de Alencar, José Martiniano e os demais envolvidos na Revolução de 1817, o Crato reafirma uma memória que ultrapassa os limites municipais. A data lembra que a história política do Brasil também foi escrita no interior, no sertão, no Cariri, em torno da Sé Catedral, quando uma vila cearense ousou falar em República décadas antes de ela se tornar regime oficial no país.
Fontes: Prefeitura do Crato, URCA, IFCE, Diário do Nordeste e Senado Federal.