3 de junho de 2026
P.4 - Dinho Lima 9

Assislan de Paiva

Jornalista

 

Dos homens, fez-se arte! Assim começa o dia em Juazeiro na última quinta-feira. Em direção ao bairro Aeroporto, portando um bloco e uma caneta, mirei num ateliê cuja matéria-prima vem de um artista de Aurora, mas de residência fixa em Juazeiro há décadas, o professor aposentado faz da sua ocupação o óleo sobre tela, rescrevendo a história do lugar, seus personagens e as diversas leituras das artes plásticas tão bem sentimentadas em cores e nomes por Dinho Lima.

Formado pela a faculdade de Belas Artes de São Paulo, Dinho experimentou desde cedo, o gosto pelos pinceis, telas e imagens fotografadas pela mente quando participou de um grupo chamado Bando, cujo objetivo seria dinamizar as artes visuais entre instalações, poéticas e movimentos sólidos, unindo aristas como Geraldo Jr, Joseph Olegário, Jânio Tavares, Maria Dias, Carol Landim e Orlando Pereira, adequando pensamentos diversos numa peça única, reunindo linguagens distintas numa performance plástica. Assim Dinho Lima, delimita os traços, as linhas e policroma as imagens; ora leitura de homens nus, no trabalho ‘Arte e Pornografia’, captada inicialmente nos escritos e desenhos dos banheiros públicos de Sampa e finalizada em Juazeiro, ora em eternizar personagens da cultura popular local, com seus mestres e personagens. Dessa narrativa nasce a 1ª exposição individual, e disserta sobre ‘O Corpo Nu Na Educação’ em seu mestrado.

É no trabalho ‘Mazelas’, que Dinho Lima cria o impacto indesejado diante de uma plateia, onde alguns olhares não compreenderam a intencionalidade, e teve ampla repercussão. Após se resguardar desse momento, e se aposentar do serviço público, ele se conclama como de fato um artista, pois é nesta ‘desocupação’, que ele se ocupa diariamente na produção das obras. Nasce um homem que afina o que sabe com o que pretende enquanto ofício, reposicionando a beata Maria de Araújo no contexto social e religioso, os mestres da cultura popular e outras figuras do Cariri, que ele classifica como “Memórias dos Mestres Cariris”.

Recentemente participou com três obras em exposição coletiva, na Galeria Curva, localizada no bairro João Cabral, o que lhe rendeu convite para expor na galeria do Centro Cultural do Cariri que reunirá mais de duas mil obras e inúmeros artistas, onde ele assina as telas: Mestre Noza, Ciça do Barro Cru e Mestre Aniceto. O citado trabalho está programado para o próximo dia 23 onde abrirá as portas ao público. Também está entre suas obras, a transversalidade e os paralelos entre sagrado, profano, místico, histórico e sociológico. É preciso conferir!

“A princípio, essa minha história de artista, surgiu como expurgamento, a minha indignação. A revolta de como a sociedade se expressa com relação a arte. Enquanto educador, observei essa repugnância com relação a ela. É a partir disso que componho esses trabalhos. Do sagrado ao profano, é uma intimidade enquanto artista pra fazer o que eu quiser”.

Contudo, nomes de referência estiveram na formação do artista como o conceituado Leonardo da Vinci, Salvador Dali e até em nomes locais, como Aldemir Martins, cearense da mesma área, atuante na universidade que também frequentou. Admirador do surrealismo, Dinho Lima também se debruça em releituras, direcionando sua pesquisa na região do Cariri cearense, adornando projetos futuros sobre “falta de reconhecimento amoroso”, e outros temas substanciais que envolve a peregrinação e de ex-votos, cujas fontes são infindáveis.