
COLUNA NORDESTINADOS A LER
POR LUCIANA BESSA
Três mulheres em torno de um homem: o francês Èdouard Louis, autor de sete obras difíceis de classificar – autobiografia, ensaio literário/sociológico, autoficção – ásperas de ler, mas necessárias de conhecer.
Talvez por isso o escritor seja persona non grata em certos círculos literários e não literários. Louis, por exemplo, não poupa críticas à direita e à esquerda francesa. Como a autoficção parte da realidade, o autor diz que “a classe dominante rejeita tudo aquilo que é visto como próximo demais do real”.
Como a missão da literatura é circular, uma amiga (Crislay) colocou Èdouard Louis no meu radar literário. Como não é possível desvê, fui em busca de conhecer esse autor visceral que discute temas como a violência de classe, a homofobia, a pobreza, masculinidade tóxica, o corpo, superação etc.
Conhecendo-o, compartilhei o impacto que suas obras causaram em mim por onde quer que eu passasse: a academia foi um desses espaços. Entre um exercício e outro, quem disse que a academia é um lugar em que só levantamos peso?, eu vomitava para minhas amigas Júlia Barreira (mãe/psicóloga) e Lila Barreira (filha/advogada) as múltiplas violências que Èdouard Louis sofreu/sofre numa sociedade homofóbica e transfóbica.
Quando o escritor nascia na zona rural francesa (Picardia) no ano de 1992, eu, Luciana Bessa, aprendia no Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE), a função catártica da Literatura. Desde então, a leitura literária tem me oferecido alívio, me faz refletir sobre a humanidade e “limpa” minha alma através da identificação.
Três dias depois do encontro do meu vômito literário, Lila me diz que comprou a obra Monique se liberta e, logo depois, Quem matou meu pai?, ambas do autor. Um misto de felicidade se apossou de mim. Para quem procura felicidade em Paris, nada contra, eu adoraria conhecer a cidade do amor, eu posso dizer que há momentos do cotidiano que aquecem a alma: cooptar leitores é uma delas.
Como os livros me lembram momentos de pausa e conexão, de imediato convidei minhas amigas para tomar um café e compartilhar sobre nossas leituras. Confesso que não tinha muita esperança de que esse encontro acontecesse, porque uma das coisas mais complexas da contemporaneidade é “conciliar agendas”.
Lembro-me do poema de Carlos Drummond de Andrade: “(…) Onde estão Rodrigo, Aníbal e Manuel / Otávio, Eneida, Candinho, em que Galeão/ Gastão espera o jato da Amazônia? / Marco encontros que não se realizam / na abolida José Olympio de Ouvidor (…)”. A ausência dos amigos mineiros, como Rodrigo de Melo Franco, Aníbal Machado, Gastão Cruls, Eneida de Moraes, que embora morassem no Rio de Janeiro, não conseguia encontrá-los, torna o poeta triste e melancólico. A correria do dia a dia afasta as pessoas e esgarça laços.
O certo é que na primeira sexta-feira de março, três mulheres se reuniram em torno de um escritor. Mas antes mesmo de falarmos sobre a obra dele, precisei contar a elas a “treta literária” do momento.
No dia cinco de março deste ano, Èdouard Louis, concedeu uma entrevista à Folha de São Paulo – “Vigilância sobre livros fez da literatura Estado autoritário”- para falar da adaptação da obra História da Violência de sua autoria para o teatro. Como entrevista puxa entrevista, o repórter lhe disse que em 2025, a acadêmica Aurora Fornoni Bernardini havia declarado (também neste jornal) “que o trabalho de Annie Ernaux e de Elena Ferrante não seria literatura em razão de uma suposta ênfase no tema em detrimento das formas” e, em seguida, perguntou-lhe de que maneira ele enxergava aquela posição.
É neste momento que nasce a “treta literária”, já que Louis respondeu: “Ernaux é uma grande escritora que reinventou a literatura, enquanto Ferrante está fazendo romance para adolescentes”. Como se não bastasse, Louis complementa: “Acredito que os livros de Elena Ferrante sejam realmente ruins, mas literatura ruim tem o direito de existir. Livros ruins não impedem a existência de livros bons”.
Sim, Louis tem razão: “Livros ruins não impedem a existência de livros bons”. Não, Ferrante não escreve para adolescentes. Se escrevesse não teria nenhum problema. Na verdade, a criadora de A amiga genial traz à tona o universo feminino por meio de temas como maternidade, amizade, dor de existir, etc
Como minhas amigas ainda não conheciam a italiana que já escreveu oito livros de não ficção, aproveitei para falar das obras que eu já havia lido dessa autora sem rosto, mas capaz de dissecar a psique feminina de forma cirúrgica.
Só depois desse preâmbulo todo, retornamos para as obras – Quem matou meu pai?, Monique se liberta e O fim de Eddy. A escrita nua e crua desse autor permanece impregnada em nossas mentes.
Às 20h fomos convidadas a nos retirar da cafeteria em que estávamos, já que o espaço tem hora para abrir e fechar. A literatura, não. Depois que se abre a primeira página de um livro, você tem sua vida transformada.