
O presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (Republicanos) pode pousar de democrata, de preocupado com a democracia e as instituições brasileiras, mas, no fundo, não passa de um político que transforma as decisões do legislativo nacional que deveriam ser pautadas pelos interesses da sociedade brasileira em um verdadeiro balcão em que defende seus interesses e de seus aliados. Como dizia o jornalista gaúcho Apparício Torelly, o “Barão de Itararé”: “a moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele”.
Hugo Motta e a corrosão silenciosa da democracia: poder, blindagem e autoritarismo no comando da Câmara
A ascensão de Hugo Motta à presidência da Câmara dos Deputados poderia ter sido um momento de reequilíbrio institucional, de restauro do diálogo democrático nacional abalado por tentativa de golpe de estado e de afirmação da transparência pública. Mas, em vez disso, o que se vê é um Parlamento cada vez mais impermeável à sociedade, guiado por interesses de autoproteção e marcado por gestos de força que lembram mais regimes de exceção do que a liturgia republicana.
Ao longo dos últimos meses, a atuação de Hugo Motta expôs uma forma de governar baseada no improviso agressivo, na blindagem política de aliados e na manipulação de ritos parlamentares — tudo para garantir a aprovação de pautas que o país rejeita e para silenciar quem tenta denunciar abusos.
Podemos aqui elencar alguns casos emblemáticos. Poucos episódios simbolizam tão bem essa distorção quanto a condução do chamado PL da Dosimetria, que reduz penas e revisa condenações impostas pelo Supremo Tribunal Federal aos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. A proposta é apresentada como um ajuste técnico, mas carrega o cheiro inconfundível das leis feitas sob encomenda — e de maneira acelerada, sem debate qualificado e ignorando completamente o clamor público contrário. Pesquisa recente apontou que maioria do povo brasileiro aprova pena de Bolsonaro e seus aliados por tentativa de golpe de estado, mesma ocasião em que os golpistas planejaram o assassinato de autoridades públicas.
A defesa de que é preciso “virar a página” soa menos como conciliação e mais como um indulto político travestido de justiça. Ao apostar nesse projeto, Motta revela um traço perigoso: o uso da máquina legislativa para reescrever fatos e favorecer agentes com força política, mesmo quando estes ameaçaram a democracia.
Mais ainda, em seu artigo sobre a aprovação da PL da Dosimetria, o jornalista Bernardo Melo Franco (O Globo) com o título “Cambalacho para reduzir pena de Bolsonaro expõe debilidade de Hugo Motta” afirmou que:
“No sábado, Flávio Bolsonaro abriu um leilão para retirar sua recém-lançada candidatura à Presidência. “Eu tenho preço para isso”, informou, sem corar. O senador não quis dizer o que ou quanto cobraria para sair da disputa. Diante da insistência dos repórteres, arriscou um gracejo: “Quem dá mais?”. Ontem o deputado Hugo Motta fez seu lance. De surpresa, pautou a votação de um projeto sob medida para reduzir as penas dos golpistas condenados pelo Supremo Tribunal Federal. O objetivo, claro, é livrar o capitão da cadeia. Pela manobra, sua temporada no xadrez seria abreviada para pouco mais de dois anos.”
Pois é, essa é a grande questão. Se Motta realmente transformou um debate tão sério de uma PL que nem deveria ter sido colocado em pauta em uma aprovação com requintes de arbitrariedade em um momento após Flávio Bolsonaro dizer que sua candidatura tinha um preço, nada há de muita surpresa dizer que Motta deu um lance, como bem atesta o jornalista de O Globo.
Se o PL da Dosimetria evidenciou um problema político, o episódio de expulsão da imprensa do plenário antes da votação expôs um problema institucional ainda mais grave. A retirada de jornalistas, câmeras, fotógrafos e assessores pela Polícia Legislativa — seguida pelo corte do sinal da TV Câmara — constitui um marco sombrio na história recente do Congresso.
Sob o comando de Hugo Motta, a Câmara viveu cenas raras até mesmo em momentos de maior tensão política: agressões a repórteres, impedimento de registro de sessões, silenciamento de profissionais cuja função é justamente garantir a transparência que o Parlamento deveria valorizar.
Ao minimizar o episódio como “excesso”, Motta demonstra complacência com práticas que violam princípios basilares da democracia. A liberdade de imprensa não é ornamento; é um mecanismo de vigilância pública. Quando o Legislativo começa a expulsar quem fiscaliza seus atos, o sinal de alerta deve soar para toda a sociedade.
É bom lembrar que entidades como a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) soltou à população uma nota de repúdio em que condenam com veemência o cerceamento ao trabalho dos jornalistas que acompanhavam a sessão plenária da Câmara dos Deputados, nesta última terça-feira, 9 , em Brasília.
Esse episódio condenado por entidades de comunicação e entidades de jornalistas se soma ao histórico mais amplo de Hugo Motta no comando da Casa. Sua tentativa de avançar com a chamada PEC da Blindagem — que dificultaria o andamento de processos contra parlamentares — evidenciou lá atrás a tendência a governar com foco em autoproteção, não em interesse público.
A população rejeita massivamente esse tipo de medida, e as pesquisas mostram isso com clareza. Mesmo assim, Motta insiste em ressuscitar projetos que ampliam privilégios e reduzem a responsabilização política. A mensagem que emana da presidência da Câmara é cristalina: o Parlamento deve ser fortaleza para seus membros, não Casa do povo.
Motta tenta se apresentar ao país como figura de equilíbrio, mas a prática revela o oposto. Sua condução é marcada por:
- autoritarismo procedimental, com votações aceleradas, interrupções abruptas e mau uso do regimento;
- pragmatismo fisiológico, que prioriza acordos internos e barganhas de poder;
- falta de habilidade política, visível nos episódios de tumulto, agressões e quebra da liturgia parlamentar.
Para um presidente da Câmara, isso não é detalhe: é desqualificação. A conduta de Motta como presidente não é um fenômeno isolado; é coerente com sua trajetória política. Remanescente do velho coronelismo evoluído para as estruturas do centrão, ele cresceu num ambiente em que a política é tratada como ativo familiar — algo que se negocia, distribui e protege. Nada disso o impediu de chegar ao topo; mas agora, com visibilidade ampliada, suas práticas tornaram-se mais evidentes — e mais perigosas.
O Congresso, sob seu comando, se afasta do país real. Em vez de ser canal de transmissão das demandas sociais, vira palco de tumultos, manobras regimentais e medidas que soam como afronta ao Estado Democrático de Direito.
Cortar a imprensa, agredir jornalistas, manipular pautas e aprovar projetos contra a vontade da população não são acidentes. São sintomas de um modelo de poder que se sustenta distorção do rito institucional e uso da estrutura pública para fins políticos específicos. Isso fere o Parlamento — mas fere, sobretudo, a confiança da sociedade nas instituições.
Hugo Motta inaugura um período em que a Câmara parece menos um espaço de debate público e mais uma arena de imposição de força. A soma de suas ações — da condução irresponsável do PL da Dosimetria ao cerceamento da imprensa, passando por tentativas de blindagem parlamentar — revela um padrão: fragilizar mecanismos de controle, reduzir a transparência e submeter o Legislativo à lógica da autoproteção.
Essa postura não é apenas politicamente equivocada; é democraticamente perigosa. A democracia brasileira não ruirá com tanques na rua, mas com gestos sutis — cortes de câmeras, expulsões de jornalistas, votações opacas e leis feitas para poucos.
E Hugo Motta, infelizmente, tem contribuído para esse processo.