14 de março de 2026
Violência contra mulheres cresce e exige resposta urgente, alerta secretária do PT em Juazeiro

Entrevista

Violência contra mulheres cresce e exige resposta urgente, alerta secretária do PT em Juazeiro: “O machismo institucional mata e tenta controlar nossos corpos”, diz Zilderli Silva

Zilderli Silva, assistente social, feminista e secretária de Mulheres do PT de Juazeiro do Norte, aponta que o aumento recente da violência contra as mulheres no Brasil está ligado ao fortalecimento do machismo e da misoginia, processo que, segundo ela, ganhou força desde os ataques à presidenta Dilma Rousseff e se agravou durante o governo Bolsonaro. Para Zilderli, discursos violentos de figuras públicas ajudam a naturalizar agressões e legitimar comportamentos discriminatórios.

Ela critica projetos de lei que restringem direitos das mulheres, como o PDL 3/2025, que dificulta o acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Para Zilderli, trata-se de machismo institucional que busca controlar corpos femininos e culpar as vítimas.

A secretária enfatiza a importância de aparelhos públicos como a Casa da Mulher Cearense, que realizou 1.200 atendimentos apenas no primeiro trimestre de 2025. Ela alerta também para a influência negativa de redes sociais e influenciadores que reforçam comportamentos abusivos sem qualquer regulação.

No campo político, Zilderli afirma que todas as mulheres que atuam na política enfrentam violência de gênero, citando casos emblemáticos como Dilma Rousseff, Marielle Franco, Marina Silva, Luizianne Lins e a vereadora Yanny Brena, assassinada em Juazeiro.

Sobre o papel da secretaria de Mulheres do PT, ela defende o fortalecimento da participação feminina em todos os espaços institucionais e anuncia propostas como a criação de um observatório da violência contra a mulher, voltado não apenas a dados, mas também à produção de estudos, projetos de lei e fiscalização de políticas públicas.

Leia entrevista completa:

Quem é a Secretária de Mulheres do PT?

Eu me chamo Zilderli de Sousa Silva, faço 49 anos no dia 13 de dezembro e sou natural de Fortaleza, vim para Juazeiro do Norte após a aprovação no concurso de 2019. Sou graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará, mãe, mulher, profissional, feminista, petista, cearense, revolucionária.

Tem tido um aumento exponencial de casos de violência contra a mulher nos últimos dias. A que você atribui este aumento?

O recrudescimento do machismo e da misoginia no Brasil, tem início nos movimentos pelo impeachment de Dilma e os ataques que esta sofreu. Não podemos nos esquecer dos adesivos de carro com a presidente da República de pernas abertas, as vaias e palavrões contra ela na abertura da Copa do Mundo. O recrudescimento do machismo e da misoginia aparece quando sai uma reportagem sobre como a primeira dama Marcela Temer era “bela, recatada e do lar””. Não que um a mulher não o possa ser, mas o que significam essas palavras? O que ser recatada realmente significa? É ser recatada ou ser submissa? Se encolher para caber nas expectativas masculinas? E esse machismo e essa misoginia vai em um crescendo, quando Bolsonaro assume a presidência, as palavras do então presidente ressoam na sociedade, a filha é uma fraquejada, a mulher do presidente de outro país é feia, fora as palavras criminosas ditas quando era deputado, que não estuprava a deputada Maria do Rosário por ela ser feia.

Algumas leis aprovadas são nocivas ainda às mulheres?

O machismo e a misoginia então velados, encontram espaço e voz. Uma voz que continua ressoando no Congresso Nacional, com as muitas leis que este Congresso tem colocado em pauta para retirar nossos direitos, em uma busca atroz para controlar nossos corpos e calar nossas vozes, como é o caso do PDL 3/2025, que dificulta o aborto legal em casos de violência sexual contra crianças e adolescentes. É o machismo institucional punindo nossas meninas pela violência que sofreram. É o machismo estrutural, que tem sido amparado por deputados e senadores, que faz a sociedade questionar a vítima do estupro pela roupa que estava vestindo, pelo lugar em que estava. A culpa nunca é do abusador, do feminicída, a culpa é da vítima.

Equipamentos como a Casa da Mulher são importantes nessa luta?
São demais.  A Casa da Mulher Cearense, só nos 3 primeiros meses de 2025, realizou 1.200 atendimentos. Isso sem falar nas violências que raramente viram estatística: a violência psicológica, sexual, patrimonial e moral. Associado a isto, vemos influenciadores e coachs divulgando comportamentos misóginos, naturalizando o assédio, comportamentos abusivos, violência. A falta de regulação da mídia, principalmente das redes sociais, que não possuem filtro em relação as postagens, a cultura do estupro e do machismo, todos estes são fatores que, em conjunto, criaram esta epidemia de violência contra a mulher, que hoje vivemos.

Na sua visão como se dá a violência na política contra as mulheres?

A violência contra a mulher ela atravessa todos os extratos sociais, Juazeiro tem um caso emblemático, o assassinato da vereadora Yanny Brena. Todas as mulheres que exercem a política já foram vítimas de violência política de gênero. Já citei o caso de Dilma, mas a falecida D. Marisa, a atual primeira dama, Janja da Silva, a Ministra Gleisi Hoffman, a Ministra Marina Silva, que foi aviltada em pleno congresso nacional. Mais perto de nós os ataques sofridos por Luizianne Lins, por Iris Tavares, por Larissa Gaspar, e claro o mais emblemático de todos eles, os ataques a Marielle Franco mesmo após a sua morte.

Como você acredita que a secretaria de mulheres do PT pode ajudar a mudar esta situação?

Esta secretaria é formada por mulheres muito potentes, o PT é formado por mulheres muito potentes, os movimentos de mulheres, os conselhos. Mas a luta das mulheres precisa se fortalecer, se organizar ainda mais, garantindo um Congresso Nacional, Assembleias Legislativas, Câmara dos vereadores, com parlamentares que realmente representem a luta das mulheres, que estejam nestes espaços para defender nossos direitos e não para reproduzir o machismo estrutural e institucional. A secretaria de mulheres do PT de Juazeiro do Norte vai encampar esta luta, exigindo de nossos dirigentes que as candidaturas de mulheres em nosso partido sejam viáveis econômica e politicamente. Mais ainda, esta secretaria sonha mais alto, a implementação de um observatório da violência contra a mulher, unindo todos os partidos que se alinhem com esta causa, os movimentos sociais e toda a sociedade que se sinta tocado a mudar esta realidade cruel que nos oprime e mata. Mas este observatório estaria para além de estatísticas, produziria estudos, projetos de lei, fomentando a defesa das mulheres com efetividade e na prática. Cobrar de parlamentares e governantes, que a exemplo do Presidente Lula, se pronunciem com firmeza, denunciando a violência e apresentando projetos de lei que combatam esta epidemia.

Para encerrar que palavras você diria as mulheres do PT, as mulheres caririenses, as mulheres em geral.

Primeiro eu gostaria de convidar a todas as mulheres para participar do Fórum Alusivo aos 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher, que acontecerá no dia 10/12, às 19 horas, na sede do Sindicato dos Servidores Municipais – SISEMJUN, situado à R. São Cândido, 397, Salesianos e convidar os homens, aqueles a quem esta realidade incomoda, aqueles que desejam mudar esta realidade para que suas mães, suas filhas, suas esposas, suas irmãs, suas amigas, possam finalmente viver uma vida livre de violência, para estarem conosco neste processo, para se engajarem, para mudar o próprio olhar; educar os filhos para respeitarem as mulheres, educarem as filhas para sentirem-se seguras o suficiente para ao primeiro sinal de violência, voltar para casa, que não aceitem piadas machistas e comportamentos misóginos de seus pares, que denunciem casos de violência que testemunhem. Por fim pedir que homens e mulheres entendam que a violência contra a mulher não é mimimi, que o feminismo não é o ódio ao homem, é luta por direitos, por igualdade, e nos últimos tempos é luta em defesa do direito de viver.  Quando digo que o meu sonho é o fim da violência contra a mulher, em todos os espaços, dizem que é utópico, impossível. Eu discordo. Revolucionário? Talvez. Mas eu sempre disse que Revolução é substantivo feminino, luta também. Nós venceremos, porque estaremos em marcha até que todas sejamos livres, até que nenhuma mulher seja morta ou sofra qualquer tipo de violência, pela sua condição de mulher.