14 de março de 2026
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A suspensão do apoio do PL à possível candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará abriu uma nova frente de incertezas para o projeto político do ex-ministro, que tenta reconstruir espaço após o desgaste nacional acumulado nos últimos anos.

No Ceará Ciro Gomes conseguiu romper politicamente com seu irmão e o PT nas eleições de 2022 sendo derrotado por Camilo e Elmano.

A decisão do partido que abriga o bolsonarismo organizado interrompe, ao menos temporariamente, a articulação que buscava reunir setores da direita em torno do tucano Ciro Gomes — um movimento considerado improvável e que já provocava resistências internas no bolsonarismo, prova disso foi a reação de Michele Bolsonaro e o lançamento da candidatura ao governo de Eduardo Girão.

Segundo dirigentes envolvidos nas conversas, a cúpula do PL avaliou que ainda não há consenso para sustentar uma aliança desse porte. O recuo deixou Ciro exposto a um duplo desgaste: além de perder a narrativa de aglutinação de forças opositoras ao grupo governista no estado, ele passa a ser questionado sobre os limites de seu pragmatismo ao admitir aproximações com adversários históricos.

A aproximação com o PL sempre chamou atenção pelo contraste. Ciro, que construiu sua trajetória com críticas duras ao bolsonarismo e ao que considera suas práticas antidemocráticas, passou a avaliar alianças com o mesmo campo político que ele acusou de ameaçar as instituições durante a gestão Bolsonaro. Para observadores da cena política, o gesto foi interpretado como um recuo estratégico do ex-ministro na tentativa de retomar protagonismo regional.

Internamente, o movimento também gerava dúvidas. Parte de lideranças de centro e centro-esquerda que simpatizavam com uma eventual candidatura de Ciro demonstravam desconforto com a possibilidade de dividir palanque com setores radicalizados da direita. O próprio Cid Gomes falou em constrangimento caso Ciro fosse candidato com apoio do bolsonarismo.

Já no próprio PL, havia receio de que a rejeição histórica do bolsonarismo ao ex-ministro contaminasse a articulação desde o início.

Com o recuo, a disputa pelo governo do Ceará ganha novo capítulo. Ciro, que contava com o impulso inicial dessa aliança para se viabilizar como alternativa competitiva, terá de reposicionar sua estratégia enquanto tenta administrar a contradição entre sua identidade política — marcada pela defesa da democracia — e a tentativa de aproximação com o PL  partido que se tornou símbolo do bolsonarismo.

Nos bastidores, aliados do ex-governador afirmam que as conversas continuam, mas admitem que a suspensão do apoio já provoca atrasos e ruídos que podem comprometer o calendário eleitoral. A dúvida agora é se Ciro conseguirá reconstruir pontes sem ampliar ainda mais a percepção de incoerência política, um desafio que, segundo analistas, pode ser tão decisivo quanto a própria disputa eleitoral.