
Poucas relações entre um presidente da República e um jornalista tiveram consequências tão profundas para a história política brasileira quanto aquela construída entre Getúlio Vargas e Samuel Wainer. O encontro dos dois produziu muito mais do que uma amizade ou uma convergência circunstancial de interesses. Vargas encontrou em Wainer um jornalista capaz de compreender que o trabalhismo precisava disputar a opinião pública num ambiente de comunicação amplamente hostil ao seu governo; Wainer encontrou em Vargas o personagem que lhe permitiria realizar uma experiência jornalística inovadora, popular e politicamente comprometida. Dessa convergência nasceu a Última Hora, em 1951, jornal que alteraria o equilíbrio da imprensa brasileira e se transformaria em protagonista de uma das maiores batalhas políticas do século XX no País.
A história torna-se ainda mais fascinante porque Wainer não vinha originalmente do getulismo. Durante o Estado Novo, sua revista Diretrizes sofreu com a censura, e o jornalista conhecia perfeitamente a face autoritária do primeiro ciclo de Vargas. A aproximação ocorreu posteriormente e revela uma das características mais interessantes da trajetória de ambos: a capacidade de rever posições diante das mudanças históricas. O jornalista que havia enfrentado a censura do Estado Novo acabaria se tornando uma das figuras mais próximas de Vargas em seu último governo, enquanto o antigo ditador, depois de deposto em 1945, retornaria ao poder legitimado pelo voto popular e sustentado por uma poderosa base trabalhista.
A entrevista que recolocou Getúlio no centro da política
O ponto de partida dessa relação ocorreu em 1949. Samuel Wainer trabalhava para os Diários Associados, império jornalístico de Assis Chateaubriand, quando viajou ao Rio Grande do Sul para realizar reportagens. Getúlio Vargas estava afastado da Presidência desde 1945 e vivia grande parte do tempo em suas propriedades gaúchas. Embora continuasse politicamente influente, mantinha uma postura calculadamente discreta diante da sucessão presidencial que começava a movimentar o País. Wainer percebebeu que havia ali uma história muito maior do que a pauta original de sua viagem e conseguiu chegar até Vargas.
Da conversa nasceu uma reportagem histórica, posteriormente associada à célebre ideia de que Getúlio voltaria como “líder de massas”. Independentemente das diferentes versões sobre a formulação exata da frase, o significado político da entrevista era inequívoco: Vargas estava avisando ao Brasil que não era um personagem encerrado no passado. O homem deposto pelos militares em 1945 preparava sua volta, agora não pela força de uma revolução ou de uma ruptura institucional, mas pelo voto. A reportagem de Wainer ajudou a romper o isolamento político de Getúlio e mostrou que o ex-presidente continuava sendo uma figura capaz de ocupar imediatamente o centro do debate nacional.
A entrevista também aproximou definitivamente os dois homens. Wainer percebeu algo que parte considerável das elites políticas e jornalísticas parecia subestimar: anos depois de ter sido deposto, Vargas conservava uma ligação extraordinária com as camadas populares. A legislação trabalhista, a industrialização, a criação de instituições do Estado moderno e a memória das transformações ocorridas desde 1930 haviam construído uma identidade política que sobrevivera à queda do Estado Novo. Getúlio podia ter deixado o Palácio do Catete, mas o getulismo continuava vivo nas fábricas, nos sindicatos e na memória de milhões de trabalhadores.
Wainer acompanha a volta de Vargas
Quando Vargas decidiu disputar a eleição presidencial de 1950 pelo PTB, Wainer acompanhou sua campanha e testemunhou a extraordinária capacidade de mobilização popular do candidato. Getúlio percorreu o Brasil apresentando-se não mais como o chefe autoritário do Estado Novo, mas como candidato popular legitimado pelas urnas. A campanha reforçou em Wainer a percepção de que existia uma enorme distância entre a imagem de Vargas predominante em parte da grande imprensa e aquela existente entre milhões de brasileiros.
Getúlio venceu a eleição e retornou à Presidência em janeiro de 1951. Encontrou, porém, uma situação paradoxal: tinha conquistado o poder pelo voto e possuía uma extraordinária capacidade de comunicação direta com os trabalhadores, mas enfrentava um ambiente jornalístico predominantemente crítico. Grandes jornais se opunham ao governo em diferentes graus, enquanto Carlos Lacerda transformava sua Tribuna da Imprensa em uma máquina cotidiana de combate ao getulismo. Vargas percebeu que possuía votos, sindicatos e enorme memória popular, mas não dispunha de um grande jornal diário capaz de apresentar sua versão dos acontecimentos e confrontar a narrativa de seus adversários.
Nasce a Última Hora
Foi nesse contexto que Samuel Wainer recebeu o estímulo decisivo para construir um novo jornal. Vargas desejava um veículo favorável ao seu projeto político, mas que não fosse formalmente um órgão governamental. Wainer possuía ambições jornalísticas muito maiores do que simplesmente criar um boletim oficial e organizou uma publicação moderna, popular e agressiva. Em junho de 1951 chegava às bancas a Última Hora, destinada a se transformar rapidamente num fenômeno editorial e político.
A Última Hora era getulista, mas seria historicamente pobre reduzi-la a um instrumento de propaganda do governo. Wainer queria criar um diário capaz de falar com a população urbana numa linguagem diferente daquela predominante nos jornais tradicionais. Apostou em grandes fotografias, títulos fortes, cobertura esportiva, polícia, cotidiano, colunismo, serviços e uma linguagem mais próxima das ruas. Política e entretenimento conviviam no mesmo produto. O jornal tratava das iniciativas do governo Vargas, mas também entrava na vida cotidiana de seus leitores. Essa combinação de jornalismo popular, inovação gráfica e posicionamento político permitiu que a publicação conquistasse rapidamente grande circulação.
A experiência demonstrava que Wainer compreendera algo fundamental sobre comunicação de massa: um jornal político só conseguiria exercer influência duradoura se fosse também um grande produto jornalístico. Não bastava defender Getúlio; era preciso disputar a atenção do leitor. Futebol, problemas urbanos, crimes, cultura, personagens populares e notícias de interesse imediato dividiam espaço com a defesa das políticas nacionalistas e trabalhistas. A Última Hora tornou-se, assim, simultaneamente uma experiência empresarial, uma inovação jornalística e uma intervenção na correlação política do País.
Getúlio compreendia o poder da comunicação
A aliança com Wainer revela também a extraordinária percepção de Vargas sobre a importância dos meios de comunicação. Desde os anos 1930, Getúlio compreendera o poder político do rádio e fizera dele um instrumento essencial de construção de sua relação com a população. No retorno democrático, entretanto, o desafio era diferente. Não bastava falar diretamente aos brasileiros por meio dos canais oficiais; era necessário participar da disputa cotidiana de narrativas realizada pela imprensa privada, onde seus adversários possuíam enorme vantagem.
A Última Hora surgiu justamente nesse espaço. Sua função política era quebrar aquilo que Vargas e Wainer enxergavam como um cerco informativo contra o governo. Se outros jornais destacavam crises, acusações e dificuldades administrativas, a publicação de Wainer enfatizava medidas sociais, desenvolvimento, nacionalismo econômico e iniciativas governamentais, ao mesmo tempo em que respondia aos ataques da oposição. Nascia uma experiência que antecipava um fenômeno permanente das democracias modernas: a disputa pelo poder não ocorre apenas nas urnas, nos Parlamentos ou nos palácios, mas também na construção cotidiana da realidade realizada pelos meios de comunicação.
Samuel Wainer contra Carlos Lacerda
Se Getúlio Vargas era o grande adversário político de Carlos Lacerda, Samuel Wainer tornou-se seu grande adversário jornalístico. Poucas rivalidades na história da imprensa brasileira foram tão intensas. De um lado estava a Tribuna da Imprensa, de Lacerda, militando abertamente contra Vargas; do outro, a Última Hora, de Wainer, defendendo o governo e o trabalhismo. Não se tratava simplesmente de uma concorrência empresarial entre dois jornais. Era uma batalha política travada diariamente em manchetes, editoriais, denúncias e campanhas.
Lacerda via o getulismo como uma ameaça à democracia e denunciava incessantemente aquilo que considerava corrupção, populismo e manipulação das massas. Wainer enxergava no antigetulismo uma coalizão de interesses políticos, econômicos e jornalísticos incapaz de aceitar a força eleitoral de Vargas e seu projeto nacionalista. Cada escândalo se transformava em munição e cada manchete era também uma intervenção na política. A polarização entre Wainer e Lacerda acabou reproduzindo, no campo jornalístico, o grande conflito existente no País entre getulismo e antigetulismo.
A guerra contra a Última Hora
A própria existência da Última Hora passou a ser um dos principais alvos da oposição. Os adversários começaram a investigar a origem dos recursos utilizados para montar o jornal, e os empréstimos obtidos junto ao Banco do Brasil tornaram-se o centro de uma enorme controvérsia. A acusação era de que Wainer havia recebido tratamento privilegiado graças à proximidade com Vargas. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi instalada para investigar as operações, e o caso rapidamente deixou de ser uma questão empresarial para se transformar numa tentativa de atingir politicamente o presidente.
A oposição pretendia encontrar provas de que Getúlio havia interferido pessoalmente para beneficiar Wainer, o que poderia fornecer elementos para uma ofensiva contra o governo. É importante lembrar que empresas jornalísticas daquele período recorriam com frequência a instituições financeiras públicas e dependiam também de políticas governamentais para importação de papel e equipamentos. O debate, portanto, não dizia respeito simplesmente à existência de crédito público para uma empresa de comunicação, mas às condições específicas oferecidas à Última Hora e à possibilidade de favorecimento político.
A batalha tornou-se brutal e atingiu pessoalmente Wainer. Sua nacionalidade foi transformada em arma política, pois adversários passaram a sustentar que ele havia nascido fora do Brasil e, portanto, não poderia, pelas regras constitucionais então vigentes, ser proprietário de jornal. A ofensiva revelava até que ponto a Última Hora havia deixado de ser apenas uma publicação para se tornar uma peça central da correlação de forças políticas. Destruir o jornal significava enfraquecer Vargas; destruir Wainer significava retirar do getulismo seu principal instrumento diário de comunicação impressa.
Uma relação política, mas também pessoal
A proximidade entre Vargas e Wainer não eliminava tensões nem transformava o jornalista simplesmente em subordinado do presidente. Getúlio compreendia que qualquer gesto explícito de proteção ao proprietário da Última Hora poderia fornecer à oposição exatamente aquilo que ela procurava: uma prova de utilização do Estado para favorecer um aliado jornalístico. Quando as dívidas do jornal com o Banco do Brasil se tornaram um problema, Vargas deixou claro que os interesses institucionais deveriam prevalecer e que as obrigações precisavam ser cobradas.
Esse aspecto torna a relação entre os dois mais interessante. Havia afinidade política, confiança e uma evidente interdependência, mas existiam também limites. Vargas precisava de Wainer para disputar a opinião pública; Wainer precisava da força política e simbólica do getulismo para sustentar o espaço editorial que havia criado. Ao mesmo tempo, ambos sabiam que a excessiva identificação entre governo e jornal era precisamente o argumento utilizado pelos adversários para atacar os dois.
A imprensa entra no coração da crise de 1954
Ao longo de 1954, a temperatura política subiu dramaticamente. O aumento de 100% do salário mínimo anunciado por Vargas em 1º de maio aprofundou conflitos com empresários e setores militares. O nacionalismo econômico do governo, simbolizado pela Petrobras e pela defesa do controle brasileiro sobre recursos estratégicos, alimentava confrontos políticos. Carlos Lacerda intensificava seus ataques e a imprensa havia se transformado numa das principais arenas da batalha sobre o destino do governo.
O atentado da rua Tonelero, na madrugada de 5 de agosto, mudou completamente o cenário. Lacerda foi ferido e o major da Aeronáutica Rubens Vaz morreu. As investigações chegaram à guarda pessoal de Vargas, especialmente a Gregório Fortunato. A oposição passou a exigir a renúncia do presidente, setores das Forças Armadas aderiram à ofensiva e o governo começou a perder rapidamente suas bases institucionais. Nesse ambiente, a Última Hora tornou-se uma das principais vozes jornalísticas a permanecer ao lado de Getúlio, e a relação entre Wainer e Vargas chegava ao momento mais dramático de sua história.
“Só morto sairei do Catete”
Nos dias que antecederam o desfecho da crise, uma manchete da Última Hora entrou para a história: “Só morto sairei do Catete”. A frase sintetizava a disposição de Vargas de não aceitar uma renúncia imposta pelos adversários e, vista retrospectivamente, adquiriu uma dimensão terrivelmente premonitória. O cerco se fechava, militares exigiam o afastamento do presidente e a oposição considerava sua queda praticamente inevitável.
Na madrugada de 23 para 24 de agosto, Vargas reuniu seus ministros no Catete e inicialmente aceitou uma licença, desde que a ordem constitucional fosse mantida. Quando ficou claro que setores militares exigiam seu afastamento definitivo, a alternativa passou a ser renúncia ou deposição. Getúlio recusou-se a oferecer aos adversários a cena de sua capitulação e, na manhã de 24 de agosto de 1954, disparou contra o próprio coração. O suicídio jamais deve ser romantizado, mas seu efeito político foi imediato e extraordinário: o presidente acuado transformou-se, para milhões de brasileiros, num símbolo de resistência.
Wainer diante da morte de Getúlio
Para Samuel Wainer, a morte de Vargas representava muito mais do que a perda do presidente defendido por seu jornal. Morria o homem com quem sua trajetória profissional passara a se confundir desde a entrevista de 1949. A Carta-Testamento mudou instantaneamente o sentido da crise política e apresentou aos brasileiros a interpretação de Vargas segundo a qual seu governo havia sido perseguido por defender os trabalhadores, a soberania nacional e o controle dos recursos estratégicos do País.
Multidões tomaram as ruas e a indignação popular voltou-se contra veículos identificados com o antigetulismo e contra símbolos associados aos interesses estrangeiros. A Última Hora, por sua vez, encontrava-se identificada com a dor popular provocada pela morte do presidente. A relação entre os dois alcançava, naquele momento, sua dimensão definitiva: Getúlio havia criado as condições políticas para o nascimento do jornal de Wainer, e sua morte transformava a publicação em uma das principais depositárias jornalísticas da memória getulista.
A pergunta que acompanharia Samuel Wainer
Décadas depois, Wainer continuaria refletindo sobre aqueles acontecimentos e sobre a possibilidade de outro desfecho para a crise. Uma das questões que atravessaram sua memória dizia respeito ao comportamento das massas populares nas horas anteriores à morte de Vargas. O jornalista sabia que Getúlio possuía enorme apoio popular, e a explosão das ruas depois do suicídio demonstrara isso de maneira incontestável. O drama estava justamente na distância entre a pressão institucional sentida dentro do Catete e a força social que existia fora dele.
A interrogação permaneceria aberta: se Vargas tivesse convocado o povo às ruas, qual teria sido o resultado? Seria possível resistir à pressão militar? Haveria uma guerra civil? O governo sobreviveria? Ou o confronto apenas anteciparia uma ruptura ainda mais violenta? A história não permite responder, mas a pergunta revela a profundidade com que Wainer viveu a tragédia. Para ele, o suicídio não era apenas um acontecimento a ser noticiado, mas uma derrota política que precisava ser permanentemente interpretada.
O paradoxo extraordinário de Samuel Wainer
Há um paradoxo que torna essa história ainda mais poderosa. Samuel Wainer havia conhecido a censura durante o Estado Novo e acabaria transformado em um dos maiores defensores do legado de Vargas. Isso não significava necessariamente esquecer o passado autoritário, mas reconhecer que o Vargas de 1950 já não era exatamente o mesmo de 1937. O segundo governo Getúlio nascera do voto, sua base social estava fortemente ligada aos trabalhadores e seu projeto econômico enfatizava industrialização, petróleo, desenvolvimento nacional e fortalecimento do mercado interno.
Para Wainer, a principal ameaça naquele momento já não vinha de uma ditadura varguista, mas da tentativa de impedir que um governo eleito concluísse seu mandato. A trajetória dos dois homens demonstra como a política real raramente cabe em categorias imóveis. O jornalista perseguido pelo Estado Novo tornou-se aliado do Vargas democrático, e o presidente que um dia controlara a imprensa percebeu, em seu retorno pelo voto, que precisava de pluralidade jornalística para enfrentar uma estrutura de comunicação majoritariamente adversária.
Última Hora como projeto de pluralidade na imprensa
Existe ainda uma dimensão da experiência de Wainer que ultrapassa o próprio Vargas. A Última Hora representou uma tentativa de romper a concentração política da imprensa brasileira. Seu aparecimento introduziu competição ideológica num ambiente em que parcela expressiva dos principais jornais possuía posições semelhantes diante do getulismo. Isso não transformava a Última Hora em veículo neutro, e ela tampouco pretendia sê-lo. Era declaradamente próxima de Vargas e do trabalhismo, mas sua existência ampliava o espectro de posições presentes no debate público.
Esse aspecto ajuda a explicar por que a ofensiva contra Wainer foi tão intensa. Não estava em disputa apenas um jornal, mas a estrutura do poder comunicacional brasileiro. A Última Hora demonstrava que havia um público popular interessado numa interpretação diferente daquela oferecida pelos grandes veículos tradicionais. Wainer transformou esse público em leitores e, ao fazê-lo, provou que a hegemonia política na imprensa poderia ser contestada também por meio da inovação editorial e da construção de novos produtos de comunicação.
O jornalismo como ator da história
A relação entre Getúlio e Wainer demonstra de maneira particularmente clara que o jornalismo não é apenas um observador da história. Em determinados momentos, torna-se um de seus protagonistas. A Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda participou diretamente da ofensiva contra Vargas, enquanto a Última Hora participou diretamente da defesa de seu governo. Os jornais não estavam simplesmente registrando uma batalha política que acontecia em outro lugar; eles eram parte da própria batalha.
Essa característica faz de 1954 um episódio especialmente atual para compreender a relação entre mídia e democracia. Quem controla os grandes meios de comunicação possui capacidade extraordinária de estabelecer prioridades, selecionar escândalos, construir personagens, legitimar determinadas interpretações e deslegitimar outras. Vargas percebeu esse poder e buscou criar um contraponto. Samuel Wainer aceitou o desafio e construiu um jornal capaz de competir por leitores e influência.
Depois de Getúlio, Wainer continuou
A morte de Vargas não encerrou a história da Última Hora. Wainer continuou atuando e o jornal permaneceu ligado ao campo trabalhista e nacionalista. Nos anos seguintes, a publicação apoiaria Juscelino Kubitschek e manteria vínculos com as forças políticas herdeiras do getulismo, especialmente João Goulart. A trajetória que começara com Vargas transformara Wainer numa figura permanente da política e da imprensa brasileira.
Essa continuidade é importante porque demonstra que a Última Hora não era apenas um projeto pessoal do presidente. Se assim fosse, provavelmente teria desaparecido imediatamente depois de 24 de agosto. O jornal havia criado público, linguagem e identidade próprios. Tornara-se uma instituição política e jornalística que sobreviveria ao seu inspirador e continuaria participando das grandes disputas nacionais até o golpe de 1964 alterar novamente a estrutura política brasileira.
Getúlio e Wainer anteciparam uma questão contemporânea
Vista à distância, a história dos dois possui uma atualidade impressionante. Getúlio compreendeu que possuir apoio popular não bastava quando grande parte dos instrumentos de formação da opinião pública estava nas mãos de adversários. Wainer compreendeu que disputar a política exigia também disputar audiência, linguagem e capacidade de comunicação. A solução encontrada por ambos foi criar um novo veículo.
Essa lógica reapareceria inúmeras vezes na história brasileira e ganhou uma dimensão ainda maior com a internet, as redes sociais, os canais digitais e a mídia independente. A tecnologia mudou radicalmente, mas a questão essencial permanece: uma democracia plena exige pluralidade real de vozes e a possibilidade de diferentes setores da sociedade construírem seus próprios instrumentos de comunicação. Quando poucos grupos possuem capacidade desproporcional de definir o que será visto, debatido e interpretado, o pluralismo político também fica limitado.
Uma amizade no centro da história brasileira
Getúlio Vargas e Samuel Wainer eram homens profundamente diferentes. Um era um político formado nas estruturas oligárquicas da República Velha que se transformaria no principal construtor do Estado brasileiro moderno; o outro era um jornalista inquieto, cosmopolita, empreendedor e apaixonado pela profissão. Um conhecia como poucos os mecanismos do poder; o outro compreendia como poucos a força de uma manchete. O encontro entre eles ocorreu num momento em que política, industrialização, nacionalismo, direitos sociais e comunicação estavam sendo redefinidos simultaneamente.
Getúlio precisava de uma voz capaz de romper o isolamento jornalístico. Wainer precisava de uma grande causa política e de um público para construir seu projeto de imprensa. Dessa convergência nasceu uma relação que ajudou a transformar os dois. Sem Vargas, provavelmente não teria existido a Última Hora tal como o Brasil a conheceu. Sem Wainer, o segundo governo Vargas teria enfrentado a ofensiva de seus adversários com um instrumento a menos na disputa pela opinião pública.
A aliança que sobreviveu aos dois homens
A maior herança da relação entre Getúlio Vargas e Samuel Wainer talvez não esteja apenas nas páginas amareladas da Última Hora, mas numa questão que permanece aberta na democracia brasileira: quem tem o poder de contar a história enquanto ela acontece? Em 1951, Vargas e Wainer perceberam que essa era uma questão política de primeira grandeza. Não bastava governar; era preciso disputar a interpretação do governo. Não bastava possuir votos; era necessário possuir canais capazes de falar com a sociedade. Não bastava ter políticas populares; era necessário romper estruturas de comunicação capazes de apresentá-las sob a perspectiva dos adversários.
A história dos dois terminou tragicamente no caso de Vargas e continuou de maneira turbulenta no caso de Wainer, mas deixou uma marca duradoura. Getúlio entrou definitivamente para a história em 24 de agosto de 1954, enquanto Samuel Wainer se tornou um dos maiores personagens do jornalismo brasileiro do século XX. Entre os dois ficou a Última Hora, testemunho de uma época em que uma redação de jornal podia ser simultaneamente empresa, laboratório de inovação, trincheira política e centro de uma batalha pelo futuro do País. Mais de sete décadas depois, quando o Brasil continua discutindo concentração dos meios de comunicação, pluralidade, mídia independente, poder econômico e democracia, a relação entre Getúlio Vargas e Samuel Wainer permanece extraordinariamente atual.
Fonte: Brasil 247