31 de julho de 2026
Imagem de Obediencia infiel

Imagem: Reprodu??o

OBEDIÊNCIA INFIEL.

Certo dia, no final do semestre, ao sair ao pátio da escola para me livrar um pouco do estresse que os planos, cobranças de trabalho e a tela do notebook me causavam, encontrei algo inusitado: um aluno de segunda série, sentado num tronco de madeira com uma vareta na mão e conversando com a grama.

Sentindo-me curioso, eu me aproximei querendo saber porque ele estava fora de sala.

— Olá amigo! Conversando só? – Disse eu.

— Olá, professor. Não, estou conversando com as formigas. – Disse ele apontando a vareta para um formigueiro.

De fato, havia um caminho de formigas grandes, indo e vindo, onde a maioria carregava folhas verdes.

— Mas por que não está em sala? Sua turma está tendo aula agora.

— Eu sei. É porque a professora me colocou para fora de sala. Disse que eu estava conversando muito, que atrapalhava a aula e depois ela falaria com a minha PDT. Ela me entregou o livro, pediu que eu levasse lápis e caderno, fosse à biblioteca e estudasse para a vida.

— E por que não está lá, na biblioteca?

— Já fiz a tarefa e agora estou aqui, estudando para a vida, obedecendo ao que ela me pediu – Disse ele, rindo por um dos cantos da boca com ar de sabedoria.

— Como assim? – Perguntei já bastante ansioso pela resposta que o aluno iria me dar.

— Estou estudando o comportamento dessas formigas. Note que elas são bastante organizadas. As formigas menores carregam pedaços pequenos de folhas enquanto as maiores, com mais forças, carregam as folhas grandes. Essas formigas aqui – dizia ele apontando para algumas formigas amareladas, são responsáveis por cortar as folhas verdes. Há algumas formigas pequenas na entrada do formigueiro. Observe que elas se mexem pra lá e pra cá, mas nem entram nem se afastam. Parecem estar dando força às outras. Nenhuma obedece às outras, todas obedecem ao conjunto.

Mais uma fábula construída ali não por Esopo, mas por um aluno. Fiquei impressionado pela simplicidade daquela explicação sobre sociedade organizacional e enxerguei ali o sentido que o aluno atribuía àquelas ações das formigas. Eu me lembro de ter estudado isso há muito tempo e que era analisado pelo sociólogo Max Weber. Talvez por haver o instinto de trabalho coletivo pelas formigas, não consegui enxergar qualquer força coercitiva defendida por Durkheim existente naquele formigueiro, mas aquele momento de explicação me levou aos textos sociológicos que tive de Karl Marx onde ele procurava a lógica do desenvolvimento humano dentro da sociedade trabalhista. Enxerguei naquelas explicações a defesa de augusto Comte em relação à necessidade de um consenso coletivo que a sociedade carecia para se organizar.

Eu precisei comprar livros para entender mais sobre a sociedade e trabalho. E o aluno, naquele momento, precisou só de um formigueiro.

E ele finalizou dizendo:

— Deveríamos ser assim em sala de aula. A professora até que não é ruim, mas às vezes ela quer ser dona da última palavra e a opinião dela é quem mais reina. E isso machuca.

— Meu amigo, ela é um ser humano, tem muitas aulas para administrar, pode não estrar num dos seus melhores dias, as provas estão próximas e a preocupação aumenta. Não estou justificando o mal-estar, mas professor também comete deslizes. Olhe, já faz mais de trinta anos que eu caminho nessa estrada. Já caminhei por vários lugares, um diferente do outro. Tenho experiências em subir escadas, descer degraus, mantenho um bom equilíbrio em muros, bicicletas e motos. Mas, mesmo assim, ainda tropeço e caio, disse eu.

Ele riu com o ar mais tranquilo e eu completei:

— Suas observações sobre o formigueiro foram bastante inteligentes. Parabéns! Ao que ele me ensinou:

— Seu Oberdan, a gente precisa se achar, todo dia, inteligente, pois é dessa forma que a gente se torna gente. Só há um único momento da vida de um aluno em que ele pode se achar burro.

— E quando é que o aluno se torna burro?

— Quando se achar inteligente demais. – respondeu gargalhando.

Moral: Sou responsável pelo que eu ensino e pelo que você aprende.

Com informações de Leia Sempre Brasil

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