
Imagem ilustrativa gerada por IA (OpenAI) | Direção de arte: Leia Sempre Brasil
Por Francisco Filho
Toda eliminação da Seleção Brasileira provoca uma avalanche de explicações. Fala-se da intensidade, da posse de bola, das substituições e do preparo psicológico. Tudo isso merece discussão. Ainda assim, uma pergunta costuma ficar de lado: em que momento o Brasil passou a acreditar que, para vencer, precisava deixar de ser Brasil?
Durante décadas, nosso futebol encantou o mundo não porque fosse perfeito, mas porque tinha personalidade. O drible era mais do que um recurso técnico; era uma maneira de compreender o jogo. A criatividade não significava desorganização, e sim inteligência em movimento. Enquanto muitos buscavam controlar cada lance, o Brasil encontrava espaço para surpreender.
Nos últimos anos, porém, tornou-se frequente a defesa de que o futebol brasileiro precisava ser “mais europeu”. Intensidade, compactação, pressão sem a bola e disciplina tática passaram a ser apresentadas como o caminho natural para recuperar o protagonismo. Evidentemente, essas virtudes são importantes. O problema aparece quando elas deixam de complementar nossa tradição e passam a substituí-la.
Aprender com outras escolas nunca foi um erro. Pelo contrário, toda cultura evolui quando incorpora novos conhecimentos. O risco está em confundir aprendizado com imitação e modernização com abandono da própria identidade.
Essa lógica não vale apenas para o futebol. Na cultura, a cópia dificilmente produz originalidade. Na educação, forma repetidores antes de formar pensadores. Até na política, muitas vezes, gera dependência em vez de autonomia. Em campo, o efeito pode ser uma equipe organizada e competitiva, mas incapaz de produzir o inesperado. E o inesperado sempre foi a maior marca do futebol brasileiro.
Há, aliás, uma ironia nessa história. Durante décadas, os maiores clubes da Europa cruzaram o Atlântico para contratar jogadores brasileiros. Não buscavam atletas que reproduzissem o futebol europeu. Procuravam exatamente aquilo que lhes faltava: criatividade, improviso e a capacidade de decidir uma partida quando a lógica parecia insuficiente. Agora, paradoxalmente, somos nós que parecemos convencidos de que precisamos nos parecer com eles.
Por isso, a discussão vai muito além de uma eliminação ou de uma Copa do Mundo. No fundo, ela trata de identidade. Povos, instituições e pessoas começam a perder relevância quando passam a acreditar que o valor está sempre no modelo do outro, nunca naquilo que construíram ao longo da própria história.
O futebol continua sendo uma poderosa metáfora da vida. É possível aprender com qualquer escola sem renunciar às próprias raízes. Afinal, ninguém se torna original escondendo aquilo que o torna único. Quase sempre, quem faz isso consegue, no máximo, transformar-se em uma boa cópia.
Talvez o maior desafio da Seleção Brasileira não seja apenas voltar a vencer. Antes disso, seja voltar a confiar naquilo que fez o mundo inteiro parar para vê-la jogar. Porque o mundo nunca admirou o Brasil por jogar como a Europa. Admirou, justamente, porque havia em campo algo que só o Brasil era capaz de oferecer.
Com informações do(a) Jornal Leia Sempre Brasil – Edição 363