26 de junho de 2026
p.5

EDITORIAL do jornal Leia Sempre Brasil

 

Durante décadas, acostumamo-nos a ouvir a expressão “o poder público” como se ela designasse uma entidade distante, quase abstrata, responsável por resolver todos os problemas da sociedade. Aos poucos, muitos brasileiros passaram a enxergar a si mesmos apenas como “público”: espectadores de decisões tomadas nos gabinetes, consumidores de promessas eleitorais e destinatários passivos das políticas governamentais.

Mas democracia não se sustenta com plateia. Democracia exige povo.

Ser público é esperar. É assistir. É reclamar da política como quem comenta o resultado de um jogo. Ser povo é participar, cobrar, fiscalizar e compreender que o Estado não é uma estrutura separada da sociedade. Ele existe para servir aos cidadãos e deve ser permanentemente vigiado por eles.

O brasileiro desenvolveu uma relação contraditória com a vida pública. Cobra honestidade, mas muitas vezes tolera pequenos desvios quando lhe convêm. Exige eficiência, mas raramente acompanha o orçamento do município onde vive. Critica os políticos, mas abandona o debate depois do período eleitoral. A indignação aparece com força nas redes sociais, porém nem sempre se transforma em ação concreta nas associações comunitárias, nos conselhos municipais, nas audiências públicas ou mesmo no exercício consciente do voto.

Passar de público a povo significa abandonar a condição de mero espectador para assumir o papel de protagonista. Significa compreender que cidadania não é um evento que acontece a cada quatro anos. É uma prática diária. Está na cobrança por melhores escolas, na defesa de um posto de saúde que funcione, na fiscalização das contas públicas, na participação em entidades representativas e na disposição de dialogar, mesmo diante das diferenças.

Um povo forte não é aquele que concorda em tudo. É aquele que participa, questiona e entende que os direitos caminham lado a lado com os deveres. Não basta exigir transparência; é preciso acompanhar. Não basta pedir mudanças; é necessário envolver-se na construção delas.

O Brasil amadurecerá politicamente quando seus cidadãos deixarem de agir apenas como destinatários das decisões do Estado e assumirem a responsabilidade de influenciar seus rumos. Nenhum governo, por mais eficiente que seja, substituirá a força de uma sociedade consciente do seu papel.

O país precisa de menos espectadores e mais cidadãos. Precisa de brasileiros que deixem de ser apenas público para se reconhecerem, de fato, como povo: sujeitos da própria história, capazes de transformar a realidade pela participação, pela responsabilidade e pelo compromisso com o bem comum. A democracia brasileira será tão forte quanto a disposição do seu povo em exercê-la todos os dias.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *