12 de junho de 2026
p.6

COLUNA NORDESTINADOS A LER

POR LUCIANA BESSA

 

Se palavra puxa palavra, texto puxa texto. Semana passada, o tema “trabalho” foi a tônica do Clube do Livro, da Nova Acrópole, sede Juazeiro do Norte. Na obra O Profeta, Khalil Gibran foi convidado a falar sobre a temática: “Conte-nos sobre o trabalho”.

O pai da poética, Aristóteles, dizia que o trabalho era apenas uma imposição da necessidade material. A verdadeira liberdade exigia tempo livre, que deveria ser dedicado à Política, à Arte e à Filosofia. O tempo livre, o “ócio criativo”, liberta o homem das pressões sociais, além de ser um portal para exercitar a imaginação, o silêncio e a dignidade.

Automaticamente me lembrei da aprovação (Câmara dos Deputados), em breve a votação segue para o Senado, do fim da escala de trabalho 6 x 1. Tempos históricos dirão os cientistas políticos daqui a alguns anos.

Khalil Gibran, filósofo poeta, quando fala sobre o trabalho, escolhe um recorte puramente romântico: “O trabalho é o amor tornado visível. E se não sabeis trabalhar com amor, mas com desagrado, é melhor deixardes o trabalho e sentar-vos à porta do templo a pedir esmola àqueles que trabalham com alegria”.

Para além das questões românticas e materiais, o trabalho é uma ferramenta de evolução pessoal, espiritual e social. Os homens precisam do trabalho, mas também “Precisam de um descanso / “Precisam de um remanso / “Precisam de um sono” (…). Não é justo ver esses mesmos homens “Com a barra do tempo / Por sobre seus sonhos”. No Brasil, somente em 2024, houve 472 mil pedidos de licença no INSS por questões de saúde mental, dos quais 64%  foram de mulheres alegando quadros de ansiedade  e de depressão.

Parafraseando o poeta Gonzaguinha: “A vida é trabalho. E sem o seu trabalho, o homem não tem honra”. A vida é trabalho. E sem o seu descanso, sem uma boa remuneração, sem as necessárias condições de trabalho, o homem se perde em si mesmo. Não é à toa que falar de trabalho na contemporaneidade é retornar a concepção dos gregos: “fadiga, sofrimento, dor”. A escala 6 x1, pesa no corpo, na saúde e na convivência com a família.

Interessante, para não dizer outra coisa, na concepção também romântica que alguns políticos adotam sobre o trabalho. Em 2011, o então governador do Ceará, Cid Gomes, declarou: “professor deve trabalhar por amor, não por dinheiro”. Mais recentemente, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que os professores da rede paulista “trabalham com muito amor, mesmo sem os melhores salários”.

Assim como no Ceará, a reação a tal despautério, foi imediata. O Centro do Professorado Paulista (CPP) emitiu uma nota declarando que “Nem só de amor vive o professor”, cobrando do governo menos discursos exaltados e mais valorização da carreira.

Eu sou professora, no momento não estou em sala de aula, e não me sinto valorizada pelo potente trabalho que desempenho: conectar as pessoas com a leitura e com a escrita, num país em que livro é artigo de luxo e que parte da população não sabe nem o que significa escrever à mão dado à onipresença dos dispositivos digitais.

Embora todos que estejam ao meu redor declarem que “ser professor (a), e eu acredito, seja um dos trabalhos mais lindos e necessários à sociedade, na prática, o que assistimos são esses profissionais afastados de suas funções por sofrerem algum tipo de transtorno.

Para termos uma ideia, no ano de 2022, o Instituto Semesp realizou uma pesquisa sobre o trabalho desempenhado pelos professores e chegou a uma trágica conclusão: em 2040, o Brasil corre o risco de enfrentar um “apagão de professores na educação básica” motivado, principalmente, pelos baixos salários, indisciplina, violência e condições precárias em sala de aula etc.

Se é verdade que o trabalho é a atividade central da autoconsciência e por meio dele o homem se transforma e é transformado (Hegel), precisamos urgentemente mudar a concepção de que temos sobre o ato de trabalhar, em especial, o trabalho realizado pelas mulheres.

Muitas acordam cedo, tantas outras passam a noite em claro, praticamente todas enfrentam jornada dupla de atividades, cumprem mil e uma responsabilidades, mas o não reconhecimento desse trabalho pela família e  pelo Estado, contribui para a perpetuação de estereótipos, impossibilita que mulheres consigam sua independência financeira, alcancem suas aspirações educacionais, além de reforçar o desequilíbrio entre os gêneros.  A pesquisadora Lize Borges esclarece que “(…) a cabeça de quem se responsabiliza pelo lar e pela família raramente descansa”.

Continuaremos desenvolvendo nosso trabalho, porque acreditamos no que fazemos e por sabermos que ele  impulsiona a economia. E, claro, lutando para que nosso trabalho seja reconhecido, valorizado e  institucionalizado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *