5 de junho de 2026
P.8

Artigo do Francisco Filho

 

 

Meu tema para esta semana era outro. Contudo, diante das manifestações de apoio e rejeição a lideranças políticas durante a abertura da Festa de Santo Antônio, em Barbalha (CE), parece mais urgente propor uma reflexão necessária.

Religião e política cumprem funções distintas: a primeira se ocupa do sagrado; a segunda, da administração da vida pública. O problema começa quando uma invade o espaço da outra. É nesse ponto que surge um fenômeno preocupante: a devoção política.

 

Max Weber já observava que líderes carismáticos despertam forte identificação coletiva. Isso, por si só, não é um problema. O risco aparece quando a admiração substitui o senso crítico e a confiança se converte em fé inquestionável.

A linguagem desempenha papel central nesse processo. Como mostrou Michel Foucault, o discurso não apenas descreve a realidade — ele produz formas de poder e molda modos de pensar. Não por acaso, políticos passam a ser chamados de “salvadores”, “escolhidos” ou “ungidos”. Pouco a pouco, o vocabulário religioso migra para o campo político.

O Papa Francisco já alertou que a idolatria permanece uma tentação constante da fé. O perigo se instala quando líderes, partidos ou ideologias passam a ocupar um lugar absoluto. A partir daí, a crítica vira ofensa, a discordância vira ameaça e a lealdade passa a valer mais do que a verdade.

A política se transforma em religião quando o altar deixa de apontar para valores e passa a apontar para pessoas. Toda idolatria começa quando o símbolo recebe a adoração que deveria pertencer ao princípio que ele representa.

Quando políticos passam a receber mais reconhecimento do que os valores que dizem defender, instala-se um desequilíbrio. E, quando a lealdade a um líder se sobrepõe ao compromisso com a verdade, a política deixa de cumprir sua função democrática e assume traços de culto.

A democracia precisa de cidadãos críticos. A fé exige discernimento. Nenhuma delas resiste bem quando governantes são tratados como profetas e ideologias como dogmas.

No fim, o sinal mais claro de que a política virou religião é simples: quando os fatos já não corrigem convicções, porque a devoção passou a ocupar o lugar da razão.

Talvez por isso Deus não precise de eleitores. E a democracia não precise de fiéis. Ambas dependem de algo mais raro: pessoas capazes de pensar antes de transformar a fé em aplauso ou vaia.

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