
Foto: Glauber Uchoa
EDITORIAL do jornal Leia Sempre Brasil
As festas do Cariri também são força econômica
O Cariri aprendeu, ao longo de sua história, que cultura não é enfeite. Cultura é identidade, memória, fé, pertencimento e, também, desenvolvimento econômico. As festas populares da região — das festas juninas à Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha; da Expocrato aos festivais culturais de Juazeiro, Crato, Missão Velha, Nova Olinda, Santana do Cariri e tantas outras cidades — movimentam muito mais do que palcos e multidões. Elas movimentam trabalho, renda, turismo, comércio e oportunidades.
A Festa do Pau da Bandeira de Barbalha é um dos maiores exemplos dessa força. Reconhecida pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil, a celebração carrega séculos de devoção popular e transforma a cidade em referência nacional de fé e tradição. O ponto central da festa, com o carregamento e hasteamento do mastro de Santo Antônio, representa não apenas um rito religioso, mas a própria alma do povo barbalhense nas ruas.
Mas a importância da festa não termina na tradição. Quando Barbalha se prepara para receber milhares de pessoas, toda a economia local se aquece. Hotéis, pousadas, bares, restaurantes, vendedores ambulantes, mototaxistas, motoristas por aplicativo, costureiras, músicos, técnicos de som, equipes de segurança, trabalhadores da limpeza urbana e pequenos comerciantes sentem diretamente o impacto da festa. O dinheiro circula na cidade e fortalece quem vive do trabalho diário.
O mesmo ocorre com as festas juninas, que no Cariri assumem uma dimensão especial. Quadrilhas, comidas típicas, forró, artesanato, decoração, figurinos e eventos comunitários formam uma cadeia produtiva que gera renda antes mesmo do início dos festejos. Em Juazeiro do Norte, por exemplo, o Festival Juaforró integra o calendário oficial dos festejos juninos e valoriza a música, as quadrilhas, a gastronomia típica e as manifestações populares da região.
A Expocrato confirma, em números, aquilo que o povo do Cariri já percebe na prática: grandes eventos são instrumentos de desenvolvimento regional. Segundo dados divulgados pela Secretaria do Turismo do Ceará, a Expocrato 2025 gerou R$ 291,8 milhões em receita direta e atraiu cerca de 140 mil turistas ao Crato. A Prefeitura do Crato também destacou que o evento movimentou cerca de 20 mil empregos diretos e indiretos no Cariri.
Esses dados mostram que investir em festas populares não é gasto supérfluo. É política pública de desenvolvimento. Quando uma gestão apoia eventos culturais com planejamento, segurança, organização, divulgação e estrutura adequada, ela não está apenas promovendo entretenimento. Está fortalecendo a economia criativa, o turismo, a geração de empregos e a imagem da cidade.
O Cariri tem um diferencial competitivo que não pode ser ignorado: sua cultura é viva. Poucas regiões conseguem reunir, em um mesmo território, religiosidade popular, tradição junina, música, literatura de cordel, reisados, bandas cabaçais, romarias, gastronomia, vaquejada, artesanato, memória histórica e grandes eventos de massa. Essa diversidade faz da região um polo cultural e turístico com enorme potencial econômico.
Por isso, é preciso que prefeitos, vereadores, Governo do Estado, iniciativa privada e sociedade civil compreendam as festas do Cariri como parte de uma estratégia permanente de desenvolvimento. Não basta realizar eventos. É preciso planejar o calendário, qualificar trabalhadores, apoiar artistas locais, ordenar o comércio ambulante, garantir segurança, cuidar da limpeza urbana e criar condições para que o dinheiro gerado permaneça circulando na própria região.
As festas do Cariri não pertencem apenas aos palcos, aos terreiros, às praças ou aos parques de exposição. Elas pertencem ao povo. E é justamente o envolvimento popular que as torna tão fortes. Cada família que abre sua casa, cada comerciante que se prepara, cada artista que se apresenta, cada devoto que participa e cada trabalhador que encontra ali uma oportunidade ajuda a construir esse patrimônio coletivo.
Defender as festas do Cariri é defender nossa economia, nossa história e nossa identidade. É compreender que desenvolvimento não se faz apenas com obras de concreto, mas também com cultura, tradição e gente nas ruas. O Cariri cresce quando sua cultura é respeitada. E cresce ainda mais quando essa cultura é tratada como força econômica, patrimônio vivo e caminho para o futuro.