29 de maio de 2026
p.8

Artigo do Francisco Filho

Nunca houve tanta informação disponível. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil pensar com clareza. Esse é o paradoxo do nosso tempo — e, ainda assim, ninguém parece muito incomodado com ele.

Nos acostumamos ao excesso. Aos poucos, aprendemos a viver dentro dele como quem aprende a dormir perto de uma rodovia: o barulho não desaparece, apenas deixamos de ouvi-lo. Enquanto isso, ele continua lá, corroendo em silêncio a capacidade de distinguir o que importa daquilo que apenas passa.

Nesse contexto, o problema não é a mentira. Afinal, a mentira é antiga, conhecida e combatível. O verdadeiro problema, porém, é o excesso de verdades parciais, de meias frases, de informações que parecem dizer tudo e, no entanto, não concluem nada. A saturação não engana — ela esgota. E, consequentemente, um sujeito esgotado não pensa; apenas reage.

George Orwell escreveu, em 1946, que a linguagem política é projetada para que mentiras pareçam críveis e o indefensável pareça razoável. Hoje, trocou-se o parlamento pela timeline — mas o mecanismo continua o mesmo. A linguagem vaga ainda protege quem não quer ser cobrado. Do mesmo modo, o jargão continua ocupando o espaço onde deveria existir pensamento.

Sendo assim, compartilhamos antes de verificar. Julgamos antes de ouvir. Reagimos antes de compreender. E, depois disso, ainda perguntamos por que o mundo parece tão incompreensível.

Pensar com clareza tornou-se um gesto quase subversivo. Isso porque demanda lentidão em um ambiente de velocidade. Além disso, pressupõe dúvida em um ambiente dominado por certezas performáticas. E, acima de tudo, requer silêncio — justamente o recurso mais escasso da modernidade.

Uma sociedade que não processa aquilo que consome está condenada, inevitavelmente, a ser governada por aquilo que deveria governar.

Estamos afogados em dados. Entretanto, afogamento não é destino. É escolha.

Nesse sentido, vale lembrar a observação de Bertrand Russell: “Quem trabalha não tem tempo para pensar”. Filósofo, matemático e um dos grandes críticos das estruturas de poder de seu tempo, Russell não estava elogiando a preguiça. Pelo contrário: denunciava um sistema que lucra com a exaustão.

No século XXI, a exaustão ganhou outro nome: produtividade. Nesse cenário, o excesso já não é acidente — é condição. Porque quem não tem tempo para pensar também não possui linguagem para resistir.

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