15 de maio de 2026
p.3 - Editorial

Ilustração: Leia Sempre Brasil (Desenvlvida com IA - ChatGPT)

EDITORIAL do jornal Leia Sempre Brasil

O eleitor anda desconfiado da política?

Há um sentimento que atravessa o Brasil de Norte a Sul e que se repete nas conversas de rua, nos grupos de família, nos locais de trabalho e até nas redes sociais: a desconfiança do eleitor em relação à política. Não se trata apenas de rejeição a um partido ou a uma liderança específica. O fenômeno é mais profundo. Muitos brasileiros passaram a olhar para a política com ceticismo, fadiga e, em alguns casos, indignação permanente.

O problema não nasceu agora. Ele é resultado de décadas de promessas não cumpridas, escândalos de corrupção, disputas de poder desconectadas da realidade da população e uma crescente sensação de que parte da classe política vive em um universo paralelo ao cotidiano das pessoas comuns.

O eleitor brasileiro já viu de tudo: governos que chegaram prometendo renovação e terminaram envolvidos em denúncias; parlamentares que se apresentam como defensores do povo, mas desaparecem após a eleição; lideranças que trocam de discurso conforme a conveniência eleitoral. Aos poucos, criou-se uma percepção de que muitos políticos falam para vencer eleições — não para governar.

Essa desconfiança também foi alimentada pela radicalização política dos últimos anos. O debate público virou guerra permanente. Em vez de propostas, prevaleceram ataques. Em vez de diálogo, polarização. A política passou a ser consumida como torcida organizada. E quando o cidadão percebe que os problemas reais — saúde, segurança, emprego, inflação, infraestrutura — continuam sem solução, o desencanto aumenta.

O mais preocupante é que a descrença na política pode abrir espaço para dois extremos perigosos. O primeiro é a apatia: o eleitor deixa de acreditar no voto, se afasta do debate público e passa a enxergar “todos iguais”. O segundo é o surgimento de salvadores da pátria, figuras que se apresentam como “anti-sistema”, mas que muitas vezes usam justamente o desgaste das instituições para concentrar poder e atacar a própria democracia.

Ainda assim, é preciso lembrar uma verdade incômoda: a política continua sendo o principal instrumento de transformação coletiva. É por meio dela que se definem impostos, investimentos, prioridades sociais, funcionamento dos serviços públicos e direitos da população. Quando a sociedade abandona a política, outros ocupam esse espaço — frequentemente os mais organizados, os mais poderosos ou os mais interessados em benefícios próprios.

A saída para a crise de confiança não está em destruir a política, mas em qualificá-la. Isso exige mais transparência, fiscalização, coerência e participação popular. Exige também um eleitor mais atento, menos movido por paixões instantâneas e mais disposto a cobrar resultados concretos.

O recado das ruas parece claro: o eleitor não quer apenas discursos emocionados ou guerras ideológicas intermináveis. Quer seriedade, compromisso e capacidade de resolver problemas reais. A confiança na política talvez não esteja morta. Mas certamente está em teste.

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