8 de maio de 2026
p.5 - Coluna nordestinados a Ler

COLUNA NORDESTINADOS A LER

POR LUCIANA BESSA

 

Em 2006, fui das pessoas que assistiu a jovem Andy Sachs conseguir seu primeiro emprego na Runway Magazine, a mais importante revista de moda de Nova York.

E, como milhares de telespectadoras, acompanhou os percalços pelos quais ela precisou passar para ser a assistente da editora-chefe da revista, Miranda Priestly, (inspirada em Anna Wintour, lendária editora-chefe da Vogue norte-americana), a dama de ferro do mundo fashion, uma mulher muito elegante, detalhista, exigente e com a língua afiada. Alguém ao mesmo tempo temida, imponente, odiada e admirada, que parece não ter medo de nada nem de ninguém: a não ser depender da ajuda do outro. Eis a complexidade do ser humano.

Baseado no livro de Lauren Weisberger, O Diabo Veste Prada, que nunca foi um filme só sobre moda, é uma daquelas comédias dramáticas que nos mostra o crescimento pessoal e profissional de uma mulher (Andy) no exigente mundo da moda. A película, que teve um orçamento de US$ 41 milhões, arrecadou US$ 300 milhões em todo o mundo conquistando o 12º filme de maior bilheteria do mundo em 2006.

E por que o diabo veste prada? Ora, quando os homens assumem os cargos de poder, eles são considerados geniais por serem autoritários, por submeterem seus subordinados a jornadas extenuantes de trabalho fazendo-os abdicar de compromissos pessoais etc.  Quando são as mulheres…

Em 2026, uma das mais emblemáticas narrativas contemporâneas sobre a força das mulheres nos bastidores da moda, ganha uma continuação em O Diabo Veste Prada 2, reunindo parte do elenco original (Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci).  Adrian Grenier (Nate), antigo namorado de Andy, não apareceu nesta nova versão, já que agora o foco não são mais os relacionamentos pessoais. Mesmo assim, Sachs conhece um possível novo pretendente (Patrick Brammall). Quanto à direção, permanece David Frankel, enquanto o roteiro é novamente assinado por Aline Brosh McKenna.

Como nem só de nostalgia vive Hollywood, novos nomes integram o elenco como: Kenneth Branagh, Lucy Liu e Justin Theroux para ampliar os horizontes da história, que se passa em um novo momento da indústria da moda, focada na sustentabilidade, tecnologias sociais e em um consumidor mais exigente.

Se no primeiro filme o foco era no amadurecimento pessoal e profissional de Andy, no segundo; a narrativa se concentra na própria sobrevivência da indústria fashion, agora dominada pela era digital. Antes, símbolo de status, a moda transformou-se em um espaço de disputa ética e cultural, já que para além da necessidade de vestir, ela funciona como uma linguagem visual que reflete e questiona valores sociais, econômicos e políticos.

Além disso, convenhamos que em duas décadas o público também mudou. Chegou à geração Z buscando experiências novas, narrativas reais e intensas. Não bastasse, há muitos streamings, ou seja, o filme precisa ser uma experiência transformadora para levar o expectador a sair do conforto de sua casa.

Se o público mudou, as personagens também, como é o caso de Emily Charlton, que de assistente ambiciosa em O Diabo Veste Prada 1, assume uma posição de poder na versão 2, podendo contribuir para mudar os rumos da Runway Magazine.  Difícil não lembrar a obra Pedagogia do Oprimido, do educador Paulo Freire, quando ele diz: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”, isto é, oprimidos tendem a reproduzir a violência sofrida. Aqui, antigas subordinadas (Emily Charlton) tentam colocar de escanteio seu antigo algoz, Miranda, outras preferem ajudá-la a enfrentar uma crise sem precedentes após ser “cancelada” nas redes sociais e salvar a Runway (Andy Sachs).

Por falar em Miranda Priestly, antes símbolo absoluto de poder, agora percebe que seu castelo pode ruir a qualquer instante. Já Andy deixa de ser uma assistente desengonçada e pouco ligada ao mundo da moda, transforma-se numa profissional de sucesso (é demitida no dia em que recebe um importante prêmio jornalístico e é contratada sem Miranda saber) para um cargo de alto escalão: editora de matérias especiais da Runway. Embora Andy não seja mais a mesma nem seu guarda-roupa, seus valores éticos permanecem os mesmos.

O Diabo Veste Prada 2, que em único final de semana já arrecadou US$ 233 milhões de dólares, é um daquelas narrativas inteligentes, nostálgicas, irreverentes, reflexivas, com um cenário lindo e looks glamourosos, que olha para trás e segue em frente.

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