1 de maio de 2026
p.8 - Nordestinados à Ler

COLUNA NORDESTINADOS A LER

POR LUCIANA BESSA

 

 

Primeiro romance da escritora caririense Dia Bárbara Nobre, Boca do Mundo (2025) é uma narrativa que cruza/entrecruza a vida de três mulheres: Abigail (negra), Djanira (indígena) e Teresa (branca) no povoado de Urânia (na mitologia grega, é a musa da Astronomia e da Astrologia).

Na verdade, Urânia (“celestial”, “divina”), concebida a partir do real segundo a própria autora, é um misto do sertão caririense e do pernambucano, funcionando como um espaço (não só) que acolhe, cuida e protege mulheres das múltiplas violências, afinal no sertão é “onde tudo se reinventava e trocava de pele (…)”.

Na primeira cena do livro, encontramos uma mulher (Teresa) sendo “chamada” aquele local. “A serpente deslizou sobre seus pés e a guiou para dentro do povoado”. “É como se esse lugar a escolhesse, determinando que lá ela vai ficar. Por isso, o espaço, para mim, é muito importante: não penso como cenário. É um personagem também”, nos dirá a autora.

Na condição de espaço, trata-se de uma pequena sociedade matriarcal em que “se plantando tudo dá”. Lá vivem aproximadamente cerca de quinhentas famílias comandadas pelas mãos de ferro de Abigail. Reza a lenda que em Urânia existe uma serpente de fogo, que a qualquer instante pode acordar.

Aliás, a capa da obra foi criada pela designer gráfica Flávia Castanheira e traz essa serpente, símbolo da renovação, da imortalidade, da sabedoria, ancestralidade e dualidade entre vida/cura, morte/traição. Detalhe curioso:  2025, ano de publicação da obra, é também o “Ano da Serpente” no horóscopo chinês, representando sabedoria, transformação e renovação.

Três palavras conduzem essa história: violência, memória e cura, ou seja, mas do que retratar as múltiplas violências a que as mulheres são submetidas cotidianamente, a obra traz uma mensagem ainda mais pujante: a de que elas, quando unidas, são mais fortes, por isso, trata-se de uma narrativa sobre acolhimento, amizade, esperança, superação e possibilidades.

Dividida em cinco partes: Futuro passado, Tempo findado, Tempo onírico (“um território forte, onde o impossível pode acontecer”), Tempo presente e Devir – a narrativa de Dia Bárbara Nobre é marcada pela fluidez e dinamicidade – separada por capítulos (não nomeados) curtos, tendo como protagonistas mulheres num lugar místico (Urânia, já mencionado), “onde o mundo começou e onde pode acabar também e é o lugar onde mora a serpente que é a narradora do livro”, nos informa a autora.

Uma das questões centrais de Boca do Mundo (2025) é a religião, sendo a base do misticismo da história. Vemos aqui a devoção do povoado à Beata Maria de Araújo, figura religiosa do Cariri que foi invisibilizada pela Igreja Católica, e objeto de estudo da autora com a tese: Incêndios da alma: Maria de Araújo e os milagres do Padre Cícero – a história que o Vaticano tentou esconder. Tal estudo resultou no livro chamado Incêndios da Alma (2024).

Em entrevista ao Jornal de Minas, a autora declarou: “Eu pego a história da beata Maria de Araújo, que estudei por dez anos, e coloco em ‘Boca do mundo’, há uma conexão entre os dois livros”. No entanto, a narrativa traz também elementos de religiões de matrizes africanas e indígenas, “catolicismo sertanejo” e crenças populares.

Quando questionada por que trazer mulheres como protagonistas, a autora de No útero não existe gravidade (2021), é enfática ao afirmar: “É como se às personagens femininas faltassem camadas – como se não pudessem ser complexas. Se não são o objeto sexual, viram a megera, a vilã; se não isso, são reduzidas ao papel da vítima”.

Em Urânia não há megeras, vilãs ou vítimas, mas mulheres como Abigail, que aos dezesseis anos, teve um casamento arranjado pelo próprio pai (a quem ela amava e confiava) para expandir os negócios dele. Na noite de núpcias, foi estuprada pelo Homem (sogro) e engravidou. Quando a criança nasceu, ninguém sabia que o bebê não era do marido, Abigail deu a ele leite com mamona e a criança faleceu no dia seguinte após o seu nascimento. Anos depois, Abigail dá à luz à Hermínia, que acaba sendo morta pelo marido ciumento, e se transforma na “santa das espancadas” para vingar outras mulheres que como ela sofriam violências.

Como mulheres inspiram mulheres, Hermínia foi inspirada na história de Maria Isabel da Conceição, “finada Isabel”, que se transformou na “santa das mulheres espancadas e traídas”, ao ser morta pelo marido em outubro de 1929, em Guaraciaba do Norte-Ce.

Como mulheres cuidam de outras mulheres, Teresa ao fugir do marido agressor,  encontra nos braços de outras mulheres, Abigail e Djanira, amparo; no de Bamila, neta de Abigail, amor e carinho.  Nas palavras de Dia Bárbara Nobre: “Quando mulheres se reúnem, revela-se uma força coletiva capaz de enfrentar e resistir às violências impostas pela sociedade patriarcal. Abigail chega primeiro e funda o povoado; depois nasce Hermínia; Urânia já existe desde sempre; e, por fim, Teresa chega ao lugar. É quando as quatro se encontram que a história realmente começa a ganhar movimento”.

Boca do Mundo (2025) é frequentemente associado ao realismo mágico pelos leitores, estética que mistura elementos fantásticos ao cotidiano realista e são tratados com naturalidade pelas personagens. Interessante notar quem em Torto Arado (2019), do baiano Itamar Vieira Júnior encontramos os “Encantados” (entidades espirituais/ancestrais), mas, não se fala sobre o realismo mágico. Por quê? Na concepção da própria autora, sua obra flertaria com o horror latino-americano, já que que traz as questões sociais para o debate.

Em resumo, Boca do Mundo (2025)  é uma obra que fala sobre nascimento (povoado de Urânia), como de renascimento Abigail após ter sido estuprada pelo sogro e matado o fruto dessa relação; fala da construção do amor entre duas mulheres, Teresa e Bamila; bem como da morte de Hermínia, surgimento da santa justiceira que, com o tempo, encontra paz após tantos anos vingando outras mulheres que dividiam a mesma crueldade que sofreu. Afinal, “na caatinga, a natureza regenerava a morte, tudo se reinventava e trocava de pele (…)”.

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