Sociedade caririense repudia deputada bolsonarista que chamou estudantes da URCA de “vagabundos”

A visita da deputada estadual eleita Mayra Pinheiro (PL) e do ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga ao campus da Universidade Regional do Cariri (URCA), no Crato, no último sábado (10), provocou reação da instituição e abriu espaço para manifestações de repúdio às declarações dirigidas aos estudantes. Em vídeo publicado nas redes sociais, Mayra chamou alunos de “vagabundos” e “delinquentes”, além de acusar a universidade de ser utilizada para promover militância política em apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As declarações motivaram uma nota oficial da Reitoria da URCA, divulgada na terça-feira, 13. A universidade classificou as falas dos dois agentes políticos como “inverídicas e eivadas de preconceito”, além de desrespeitosas e agressivas. Segundo a instituição, o conteúdo divulgado apresenta distorções dos fatos e atinge diretamente estudantes e professores.
A Reitoria também questionou a finalidade da visita, afirmando que ela teria sido realizada para produzir conteúdo de interesse partidário e construir uma narrativa negativa sobre o ensino superior público.
A utilização de termos ofensivos contra estudantes de uma universidade pública ultrapassa os limites do debate político e levanta questionamentos sobre o respeito à comunidade acadêmica. Divergências ideológicas fazem parte da democracia, mas não justificam a desqualificação coletiva de alunos e professores.
A URCA desempenha papel importante na formação profissional, na produção científica e no desenvolvimento social e cultural do Cariri. Sua comunidade reúne estudantes de diferentes municípios e realidades sociais, muitos dos quais dependem da universidade pública para ter acesso ao ensino superior e ampliar suas oportunidades.
Por isso, a controvérsia não se restringe a uma disputa entre representantes políticos e estudantes. O episódio coloca em discussão o respeito à autonomia universitária, à liberdade de expressão e ao direito de a comunidade acadêmica participar do debate público sem sofrer ataques generalizados.
A crítica às instituições públicas é legítima e necessária em uma democracia. Parlamentares, dirigentes partidários e demais representantes políticos têm o direito de fiscalizar, questionar e apresentar opiniões sobre o funcionamento das universidades. Entretanto, esse direito deve ser exercido com responsabilidade, respeito aos fatos e compromisso com o debate público.
Chamar estudantes de “vagabundos” e “delinquentes”, sem distinguir eventuais condutas individuais, contribui para estigmatizar toda uma comunidade universitária. A universidade deve ser espaço de conhecimento, pluralidade, pesquisa e confronto de ideias, e não alvo de generalizações ofensivas.
No Cariri, a URCA representa uma conquista coletiva e um instrumento de transformação social. Defender o respeito aos seus estudantes e professores significa também defender o direito à educação, à divergência política e à convivência democrática.
O episódio reforça a necessidade de que o debate político seja conduzido com argumentos e fatos, e não por meio de insultos. A universidade pública pode e deve ser questionada, mas seus estudantes merecem respeito — independentemente de suas posições políticas ou ideológicas.
O episódio mostra apenas que a tal parlamentar que nada fez pelo Cariri apenas quer lacrar nas redes sociais em momento eleitoral delicado para seu candidato e ao mesmo tempo fazer o que o bolsonarismo faz com categoria: combater o ensino superior público nas instituições onde os filhos de pobres e trabalhadores tem acesso à educação de qualidade.