A Igreja e a responsabilidade de cuidar da sociedade

EDITORIAL do jornal Leia Sempre Brasil
Há uma diferença importante entre fazer política partidária e participar da construção da sociedade.
A Igreja Católica não é partido político. A CNBB não indica candidatos e não determina em quem os católicos devem votar. A escolha pertence ao cidadão. Mas isso não significa que a Igreja deva permanecer silenciosa diante da pobreza, da desigualdade, da violência, da corrupção, da fome, da precarização do trabalho ou das ameaças à democracia.
É justamente nesse espaço que aparece o papel social da Igreja.
A mensagem da CNBB para as eleições de 2026 chama os brasileiros à participação consciente, livre e responsável. Os bispos defendem que o eleitor conheça a trajetória dos candidatos, examine suas propostas e considere as consequências das decisões que poderão tomar quando estiverem no exercício dos cargos públicos.
Não há, nessa orientação, uma indicação de voto.
Há uma cobrança de responsabilidade. E uma alerta à sociedade contra aqueles políticos e correntes de pensamento de apoiam mentira, discurso de ódio, todo tipo de preconceito e querem tirar o povo do orçamento e das políticas públicas.
E essa cobrança é importante porque a democracia não acontece apenas no dia da eleição. A democracia também está presente quando a população fiscaliza os governantes, acompanha o uso dos recursos públicos, cobra políticas de saúde e educação, exige segurança, moradia, trabalho digno e respeito aos direitos fundamentais.
A Igreja chama atenção para uma questão que muitas vezes é esquecida: a política interfere diretamente na vida cotidiana das pessoas.
Uma decisão tomada em Brasília pode determinar o tamanho de um benefício social. Uma votação no Congresso pode alterar direitos trabalhistas. Uma decisão estadual pode modificar políticas de saúde, educação ou segurança. Uma escolha municipal pode determinar se uma comunidade terá saneamento, transporte ou moradia.
Por isso, a política não pertence apenas aos políticos. Pertence à sociedade. Fé não pode ser instrumento de manipulação
Outro ponto importante da orientação da CNBB é a defesa de uma fé que não seja transformada em instrumento de marketing eleitoral. A entidade tem reiterado que a fé não deve ser instrumentalizada para manipular eleitores. Ao mesmo tempo, reconhece que os cristãos têm responsabilidade na vida pública e devem participar do processo democrático.
Uma coisa é um candidato apresentar suas convicções religiosas. Outra é utilizar a religião para tentar transformar uma escolha eleitoral em obrigação de fé. O que vem acontecendo de forma concreta, principalmente por políticos de extrema-direita no Brasil. E de políticos que se dizem religiosos usando a fé como forma de manter poder e manipular consciências.
O compromisso social da Igreja ganha ainda mais importância quando se olha para aqueles que vivem em situação de vulnerabilidade.
A CNBB coloca entre suas preocupações a pobreza, a desigualdade, a dignidade humana e o bem comum. Em mensagem divulgada em setembro, os bispos também relacionaram dignidade humana às condições de trabalho, ao descanso, à convivência familiar e à superação das desigualdades.
Esse posicionamento recupera uma dimensão histórica da presença social da Igreja no Brasil: estar ao lado de comunidades que enfrentam problemas concretos.
Moradia, alimentação, trabalho, saúde, educação e proteção das famílias não são questões abstratas. São problemas que atingem pessoas reais.
A democracia não pode ser defendida apenas quando o resultado das urnas agrada.
A mensagem da CNBB ressalta, portanto, a importância do respeito à Constituição, às instituições democráticas, ao Estado Democrático de Direito e aos resultados eleitorais. Também manifesta preocupação com violência, corrupção, abuso de poder e disseminação de notícias falsas.
Uma democracia verdadeira precisa admitir divergências. Pessoas podem discordar profundamente sobre economia, costumes, políticas sociais e o papel do Estado. O que não pode desaparecer é o compromisso com as regras democráticas e com a dignidade de quem pensa diferente.
A própria CNBB afirmou, ao analisar o cenário eleitoral, que uma sociedade democrática não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela em que pessoas diferentes conseguem compartilhar instituições e regras comuns.