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Minha caminhada de leitora começou na adolescência para fugir das brigas homéricas do ambiente doméstico. Naquele instante, não me importava saber absolutamente nada sobre o livro, apenas que ele fosse um meio de transporte para uma realidade livre de discussões familiares.
Na Universidade, eu lia os livros indicados pelos meus professores. Confesso que demorei para me questionar: “Quais livros eu quero ler?”. Quando se trabalha desde os quinze anos, ter disposição e tempo para ler são atos de bravura.
Quando eu pensava na leitura, imaginava tão somente aquele que escreve a obra: o autor, assim mesmo no masculino, já que fui ensinada que as mulheres entraram tardiamente no ambiente escolar/acadêmico, logo, o universo literário era forjado por homens: Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, Mário de Andrade, Manuel Bandeira… A lista é imensa!
Enfurnadas no ambiente doméstico pelos pais/maridos, invisibilizadas pela crítica literária, retiradas dos manuais escolares, sem ver seus livros nas bibliotecas / livrarias, eventos / premiações, eu, assim como milhares de leitoras, levei anos para descobrir que havia inúmeras mulheres escrevendo, mas essa conversa ficará para um outro momento.
Talvez o foco estivesse sempre no autor, quando eu pensava no ato de ler, não só porque meus professores falavam da vida de cada um deles, como o mercado editorial vende a imagem de quem escreve. Embora a obra e o artista não sejam a mesma coisa, na contemporaneidade, vende-se a ideia de que o “autor se torne a própria obra”. Mais uma conversa para outro texto.
À medida que as leituras foram se intensificando na minha jornada, comecei a pensar no papel das editoras, principalmente, quando meus professores levavam para a sala de aula o mesmo livro, mas de editoras diferentes. Ou seja, num determinado momento, a obra literária tinha sido editada pela Boitempo, em outro momento pela Cosaf & Naif e, em outro, pela Rocco ou pela Companhia das Letras.
O que eu achava intrigante, na verdade não entendia, é como os professores podiam ter o mesmo livro, do mesmo autor, de três editoras diferentes. Minha imaginação funcionava em linha reta: mesmo autor, mesma narrativa, o que poderia mudar de uma editora para outra? Absolutamente nada. Ledo engano! E dizia para mim mesma: “quando eu tiver dinheiro, nunca vou comprar o mesmo livro de editoras diferentes, assim terei mais livros”.
Focada naquele que escreve, levei um tempo para pensar no papel social das editoras, responsáveis pela materialização do livro. Cada uma segue uma linha editorial para atender um nicho específico: umas estão voltadas para a religião ou para resgatar os clássicos, outras para o desenvolvimento pessoal, muitas delas para o aspecto ficcional, e há aquelas que se dedicam a publicar apenas mulheres.
Em nossos tempos, há editoras focadas exclusivamente na produção de livros digitais (e-books, audiolivros). Sem falar que ao dispensar os gastos com papel e a gráfica reduzem os custos de impressão e logística, mas isso discutiremos posteriormente.
O mercado editorial mudou muito nos últimos anos. Até meados dos anos 2000, escritores (as) da região Nordeste publicavam suas obras por meio de editoras “locais”. Hoje, escritoras como Jarid Arraes, Marília Arnauld, Maria Valéria Rezende, Dia Bárbara Nobre, Socorro Acioli publicam suas narrativas pela Companhia das Letras, Penalux, Alfaguara etc. O que isso significa? Na prática, quando se publica por uma editora “local”, a obra produzida é rotulada de “literatura regional”. A autora de A cabeça do santo (2014) alega, e eu concordo, que se trata de uma visão colonial e limitada sobre a verdadeira diversidade da cultura brasileira.
O certo é que ser publicado (a) pelas editoras do eixo Sul-Sudeste permite dentre outras coisas, mais visibilidade no cenário literário não só nacional, mas também estrangeiro, assim como uma distribuição mais rápida e ampla, que permitem as obras chegarem às livrarias com um custo logístico reduzido.
É importante ressaltar que cada vez mais autores (as) contemporâneos (as) têm alcançado projeção nacional publicando em “editoras locais” provando que a qualidade de seus textos independe da editora na qual está inserido (a).
É preciso levar em conta ainda o caso das editoras independentes e os coletivos literários. Às primeiras são aquelas em que estão longe dos grandes grupos econômicos concentrando sua existência na autonomia financeira, na liberdade editorial, em um modelo de gestão flexível que permita financiar os livros por conta própria, usar editais públicos ou mesmo um financiamento coletivo. Quanto aos coletivos literários, o mais conhecido deles é o Mulherio das Letras, que funciona como uma rede de apoio para a promoção do livro no país, já que possibilita que a obra seja vendida diretamente nas feiras literárias, lojas virtuais, ou por meio de plataformas digitais.
Em suma, ter um livro em mãos não é fruto exclusivo do processo criativo de um escritor (a). Saber por qual editora ele foi publicado permite ao leitor / à leitora, dentre outras coisas, entender a confiabilidade da tradução, a qualidade do texto que se tem em mãos, os critérios de seleção, a linha editorial e, claro, a própria reputação da editora dentro do mercado.
Com informações de Nordestinados a Ler