
Imagem: Reprodução
Por Luciana Bessa
Em outubro de 2025, eu e a contadora de história Conceição de Maria, estávamos no Centro Cultural de Juazeiro do Norte falando sobre “A infância na poética de Cecília Meireles”, quando um jovem de sorriso largo e roupas coloridas juntou-se ao grupo e participou ativamente da roda de conversa.
Ao final dela, descubro de que se trata do poeta e cordelista Patrick Lima, que transformou Harry Potter, protagonista da saga de J.K. Rowlling, em Haroldinho, um menino que viaja pela região do Cariri enfrentando vilões do cangaço. Além de inúmeros títulos de cordel, dentre elas as Superstições Nordestinas, ele ainda é um apaixonado pela música e já lançou discos como: “Caixa de Entrada” (2012) e “Realejo” (2016).
Como não é possível falar sobre a literatura infantil de Cecília Meireles em duas horas, terminado o evento, saímos para continuar a conversa e alimentar o corpo. Patrick Lima foi conosco e por diversas vezes exaltou a mulher amada. Eu, claro, quis saber seu nome: Julie Oliveira, também poeta, cordelista, pesquisadora sobre a temática e ativista na luta do movimento nacional “Cordel Sem Machismo” criado em 2020. Como se não bastasse, tem cerca de 15 livros já publicados e desenvolveu o gosto pelo cordel com o pai: o cordelista Rouxinol do Rinaré – nome adotado por Antônio Carlos da Silva.
A literatura, para além de estimular a criatividade e aguçar o senso ético, estético e crítico, é uma arte encarregada de criar encontros. Sabendo disso, o Universo coloca em nosso caminho aquelas pessoas com as mesmas afinidades para que possamos partilhar narrativas literárias e existenciais.
Eu, que tenho me dedicado a estudar escritoras que têm produzido suas obras nas últimas duas décadas na região Nordeste, logo pensei ao saber quem era a musa do poeta: “Já imaginou se Julie pudesse compartilhar sua trajetória no mundo do cordel e sua luta contra o machismo neste gênero, que foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, no ano de 2018, pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)?”.
Sou daquelas pessoas que acredito nos pedidos “jogados para o Universo”, além de imaginar alto. Patrick logo respondeu: “Julie iria adorar. Em 2026, haverá a Mostra SESC e estaremos aqui no Cariri”.
Em novembro do mesmo ano, participei do “III Seminário de Literatura Cearense: do ignoto ao fantástico do Ceará”, coordenado pelo professor Dr. Charles Ribeiro Pinheiro. Adivinha quem eu encontro neste evento? O casal 20 da literatura de cordel: Patrick Lima e Julie Oliveira.
Julho de 2026. O Universo conspira para que os nossos desejos se tornem reais. Patrick Lima, via Instagram, me envia o seguinte texto: “Agora em agosto estamos voltando por aí. Lembro que você tinha mencionado que iria ter um evento neste período. Caso esteja pensando em algo, me avisa. Acho que era sobre as mulheres escritoras”.
Vocês não fazem ideia da minha felicidade ao receber esta mensagem. Em uma sociedade focada na monetização e no utilitarismo de tudo o que nos cerca, a literatura permanece, ainda, mais pujante e forte do que nunca, funcionando como um elo que aproxima pessoas para que elas possam compartilhar suas alegrias, suas dores e suas dúvidas frente a um mundo performático e cada vez mais conservador, em que se pede o retorno da Ditadura.
Dia 22 de agosto de 2026 no Refúgio Café Bar. O Grupo de Gênero, coordenado por Dina Melo e por mim, recebe Julie Oliveira acompanhada do genitor (Rouxinol de Rinaré) e do marido (Patrick Lima), ambos incentivadores e apoiadores do trabalho da escritora. Não é à toa que o pai a emancipou aos 16 anos de idade para que ela pudesse viajar e participar dos eventos literários pelo Brasil.
Liberdade com responsabilidade. O auxílio dos pais é o alicerce para que os filhos tenham segurança para explorar o mundo e enfrentar os obstáculos pelo caminho. Sou muito grata à minha mãe – Lúcia Bessa – pelo suporte em minha jornada.
Em pouco mais de uma hora, Julie Oliveira falou de sua relação com o pai, os eventos que participaram juntos, seus questionamentos em torno das poucas mulheres que via nestes espaços, suas primeiras publicações, sua atuação no movimento “Cordel Sem Machismo”, a criação da Ganesha Edições e Produções Culturais, a loja on-line Teu Cordel, o coletivo / selo editorial, Cordel de Mulher, para divulgar e dar visibilidade às mulheres produtoras de cordel e, claro, sua participação na Mostra SESC com projeto “Museu sem paredes: território vivo”, em que reflete sobre o cordel como um espaço de memória ativa e sobre os modos como a tradição é preservada, disputada e reinventada. Presenteou-nos com os córdeis “Vidas Secas” baseado na obra de Graciliano Ramos (Patrick e Julie), “A história de Pandora em nova simbologia” (Julie) e “Louvação ao cordel de mulher (Julie e Paola Tôrres).
Além disso, nossa convidada jogou seus futuros planos para o Universo: viajar o Brasil de ponta a ponta entrevistando mulheres cordelistas e transformar tudo isso em um documentário.
Quem sabe em 2027, recebamos aqui no Cariri Julie Oliveira, poeta, cordelista e cineasta. A literatura leva-nos para lugares inimagináveis e nos coloca diante de mulheres inspiradoras!!!
Com informações do Leia Sempre Brasil