
Crédito: Imagem gerada por IA – Brasil 247
Mais de três anos depois de Maria das Graças Ramos de Oliveira recorrer à Justiça para poder cuidar legalmente do irmão, a Justiça Estadual de Mato Grosso do Sul finalmente transferiu para a família a curatela de Adélio Bispo de Oliveira. A decisão representa uma mudança importante na situação de um homem que, embora tenha sido considerado inimputável em razão de transtorno mental, permanece desde 2018 na Penitenciária Federal de Campo Grande, unidade de segurança máxima destinada a presos de alta periculosidade.
A mudança ocorre depois de anos de questionamentos sobre a compatibilidade entre o estado de saúde mental de Adélio e sua permanência em uma penitenciária federal. Laudos sucessivos constataram transtorno mental e incapacidade para os atos da vida civil. Em perícia divulgada pelo 247 em 2023, o psiquiatra Rodrigo Abdo concluiu que a doença mental o incapacitava totalmente para esses atos.
A própria Defensoria Pública da União já havia recorrido à Justiça para que Adélio fosse retirado do presídio e encaminhado a um hospital psiquiátrico. Segundo o defensor público Welmo Rodrigues, dois laudos indicavam risco de agravamento do quadro caso o tratamento adequado não fosse realizado em ambiente hospitalar. A Defensoria apontou ainda que a penitenciária não dispunha, à época, da estrutura de saúde mental considerada necessária.
A nova situação jurídica não significa que a transferência para um hospital ocorrerá automaticamente. A definição sobre o local de cumprimento da medida de segurança envolve a Justiça Federal e a disponibilidade de atendimento. Mas, pela primeira vez desde que começou essa batalha, a família pode atuar formalmente em nome de Adélio, reivindicando as providências médicas que considerar necessárias.
Maria das Graças tenta assumir a curatela do irmão há anos. Em 2023, a juíza Cíntia Xavier Letteriello, da 2ª Vara de Família e Sucessões de Campo Grande, negou a ela a curatela provisória e nomeou um defensor público estadual. A decisão foi tomada depois de uma entrevistada própria juíza com Adélio no presídio da qual Maria das Graças e seus advogados, Edna Teixeira e Alfredo Marques, não participaram.
A irmã sustentava que Adélio havia concordado anteriormente que ela assumisse a função. Em visita presencial realizada em março de 2023, segundo seu relato ao 247, ele chegou a se emocionar ao ouvir que a irmã não desistiria dele. Maria das Graças havia sido uma das pessoas que ajudaram a cuidar de Adélio depois da morte dos pais e passou anos praticamente sem contato com ele após a prisão.
Agora, esse quadro muda.
A permanência de Adélio no sistema penitenciário federal é um dos pontos mais controversos de sua história.
Ele foi preso em flagrante em 6 de setembro de 2018, acusado de esfaquear Jair Bolsonaro durante um ato de campanha presidencial em Juiz de Fora. Posteriormente, a Justiça reconheceu sua inimputabilidade em razão de transtorno delirante persistente e determinou o cumprimento de medida de segurança.
Em outra reportagem, o 247 recuperou a disputa judicial posterior: quando a Justiça Federal em Campo Grande entendeu, em 2020, que Adélio não deveria continuar na penitenciária, houve conflito sobre qual juízo teria competência para determinar o local de cumprimento da medida de segurança. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, e prevaleceu o entendimento de que a decisão caberia ao juízo de origem, em Juiz de Fora.
Desde então, a Defensoria Pública da União vem defendendo que o destino adequado seja um hospital do SUS, preferencialmente próximo à família.
A relação entre Adélio e Zanone Júnior também se deteriorou.
A reclamação reapareceu nas conversas com Maria das Graças. Na visita feita pela irmã, Adélio voltou a responsabilizar o antigo advogado por sua situação. Em reportagem de março de 2026, Maria das Graças relatou que o irmão dizia que Zanone o havia “trancado na cadeia e jogado a chave fora”.
O próprio histórico processual tornou a situação ainda mais incomum: Zanone deixou posteriormente a defesa, mas chegou a exercer a função de curador processual, até ser substituído. O 247 registrou que a Justiça Federal acabou afastando-o dessa condição, passando a função à Defensoria Pública.
Quem era Adélio antes de 6 de setembro?
Há outro aspecto pouco explorado da história: a vida profissional de Adélio antes do episódio de Juiz de Fora.
Dois currículos entregues por ele em busca de emprego — documentos preservados e obtidos pela reportagem — ajudam a reconstruir uma trajetória de trabalhos simples e variados. Eles não permitem, evidentemente, estabelecer retrospectivamente seu estado psiquiátrico, mas mostram uma pessoa que, por muitos anos, conseguiu trabalhar e circular por diferentes setores da economia.
Nos currículos, Adélio informa ensino médio completo e relaciona cursos de hotelaria, informática, atendimento ao público, gestão de compras e controle de estoques, montagem e manutenção de computadores, telemarketing e técnicas de vendas e cobranças. Há ainda referência a um curso de Ciências Econômicas de 72 horas.
A lista de empregos é igualmente variada. Adélio registra passagens como servente de obras, auxiliar de produção, operador de máquinas, caixa e balconista de drogaria, trabalhador de limpeza e manutenção, atendente e chefe de padaria e operador de telemarketing. Em um dos documentos, apresenta-se como disponível para trabalhar como garçom, vendedor, almoxarife e em atividades de manutenção.
O conjunto é compatível com uma trajetória laboral extensa, embora marcada por ocupações de baixa remuneração e mudanças frequentes. Registros jornalísticos da época apontam que ele acumulou dezenas de vínculos de trabalho ao longo da vida.
Pessoas que trabalharam com Adélio também deram descrições muito diferentes da imagem que posteriormente se cristalizaria em torno dele. Colegas o descreviam como reservado e pouco expansivo, mas capaz de cumprir normalmente suas tarefas. Alguns o consideravam inteligente.
Em Juiz de Fora, ele procurou trabalho logo depois de chegar à cidade, em agosto de 2018. A investigação da Polícia Federal registrou que trabalhou como garçom.
Esse detalhe não reduz a importância dos currículos. Eles mostram que buscar emprego era uma prática recorrente na vida de Adélio e que sua trajetória anterior não era a de alguém permanentemente apartado da sociedade, mas a de um trabalhador de ocupações simples que se deslocava entre cidades e empregos.
Outro dado merece registro.
Bolsonaro tinha uma visita a Juiz de Fora planejada anteriormente. O evento inicialmente previsto para agosto acabou não ocorrendo. A visita foi posteriormente reorganizada para 6 de setembro, véspera do feriado da Independência.
A proximidade temporal entre a chegada de Adélio à cidade e a alteração da agenda de Bolsonaro é um fato que pode ser investigado. A investigação da Polícia Federal concluiu que Adélio agiu sozinho e afirmou ter encontrado elementos de planejamento individual do ataque.
Quase oito anos depois de 6 de setembro de 2018, a decisão da Justiça Estadual de Mato Grosso do Sul abre uma etapa diferente.
Durante grande parte desse período, Adélio esteve praticamente separado da família, submetido às regras de uma penitenciária federal de segurança máxima. Maria das Graças fez uma única visita presencial, e quatro visitas virtuais, a partir de Montes Claros, Minas Gerais, onde a família reside.
O homem declarado inimputável e diagnosticado com transtorno mental grave passou a maior parte de seus dias em isolamento, enquanto sucessivos laudos registravam a necessidade de acompanhamento psiquiátrico. A Justiça o proibiu de dar entrevista.
Maria das Graças levou anos para conseguir simplesmente visitá-lo. Depois, precisou recorrer à Justiça para poder representá-lo. Teve o primeiro pedido de curatela provisória rejeitado e acompanhou a deterioração da saúde do irmão sem dispor de poderes legais para interferir diretamente nas decisões tomadas em nome dele.
Agora dispõe desses poderes.
A curatela muda radicalmente quem pode falar legitimamente por ele. A discussão sobre sua permanência em uma penitenciária de segurança máxima deixa de ocorrer apenas entre juízes, procuradores, defensores e administradores penitenciários.
A família entra formalmente nessa equação.
E Maria das Graças poderá fazer aquilo que diz pretender desde o início da ação: reivindicar que um homem reconhecido pela própria Justiça como portador de transtorno mental grave deixe uma cela de segurança máxima e seja tratado como paciente, em uma unidade psiquiátrica do Sistema Único de Saúde.
E, importante, poderá falar livremente sobre o que ocorreu em 6 de setembro de 2018.
fonte: Brasil 247