
O avanço do agronegócio na Chapada do Araripe está levantando o alerta de ambientalistas, pesquisadores, organizações da sociedade civil e lideranças locais dos três estados que integram o território, composto pelos estados de Pernambuco, Ceará e Piauí. O movimento Salve a Chapada do Araripe, que reúne cerca de 140 pessoas, pretende questionar pontos do Plano de Manejo da região, aprovado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) neste mês.
Segundo Aldenir Saraiva, integrante do movimento, a avaliação é de que o documento deixou brechas que podem favorecer atividades como o agronegócio, o desmatamento e a expansão imobiliária. A mobilização, que começou a ganhar forma há cerca de cinco anos e foi organizada em um grupo envolvendo os três estados em fevereiro de 2025, pretende agora discutir os pontos considerados prejudiciais à preservação da Chapada.
O portal Movimento Econômico tem acompanhado a expansão do agronegócio na Chapada do Araripe. Recentemente, mostramos que o Plano de Manejo da APA da Chapada do Araripe permite que quase 90% da área ao agronegócio. Também abordamos como a região tem potencial para se tornar uma nova fronteira agrícola do país. Este fato está provocando uma busca por terras cultiváveis, principalmente por agricultores experientes de outros estados.
“O plano deixou brechas que favorecem ao agronegócio. E o movimento continua na luta porque nós vamos reivindicar essas brechas, que possam ser revisadas, inclusive deixa brecha para o desmatamento, para a questão imobiliária”, afirma Aldenir.
Movimento quer revisar pontos do plano de manejo
A aprovação do plano era uma das principais reivindicações do movimento, que desde 2025 vem promovendo seminários, atos públicos, abaixo-assinados e o envio de documentos a órgãos públicos. Para Saraiva, a aprovação representou uma conquista depois de anos de espera, mas não encerrou a mobilização.
A avaliação do grupo é que a proteção prevista deveria ser mais rigorosa diante da importância ambiental da região. A Chapada do Araripe reúne diferentes tipos de vegetação, entre eles Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica, além de concentrar nascentes e fontes responsáveis pelo abastecimento de municípios do entorno.
“A Chapada do Araripe é a caixa d’água do sertão. É na Chapada do Araripe que nós temos as nascentes, as fontes que abastecem aqui a região, que é a nossa riqueza”, destaca Aldenir.
O grupo pretende se reunir para definir quais pontos do plano serão questionados. Também está prevista a participação da sociedade civil em uma agenda com o Ministério Público em novembro, quando poderão ser apresentadas observações sobre o documento.
Movimento reúne diferentes setores
A mobilização reúne representantes de diferentes segmentos ligados à defesa ambiental e ao desenvolvimento da região. Segundo Aldenir, entre os 142 integrantes estão pesquisadores, professores, jornalistas, organizações não governamentais, associações, moradores e representantes políticos dos três estados que compõem a Chapada do Araripe.
A atuação é organizada em diferentes núcleos. Há um grupo gestor responsável pela coordenação geral, um núcleo jurídico formado por advogados e um grupo pedagógico voltado à educação ambiental e ao trabalho com associações e escolas. O movimento também mantém um núcleo de artes, responsável por iniciativas culturais relacionadas à valorização da Chapada.
Entre as ações está a produção de um hino da Chapada do Araripe, gravado com artistas locais. Para Aldenir, a estratégia busca ampliar o envolvimento da população com a causa e reforçar a identidade cultural do território.
Expansão agrícola no Araripe preocupa movimento
Entre as principais preocupações está a chegada de produtores de outras regiões do país para a aquisição de terras e implantação de lavouras. Segundo a ambientalista, há relatos de investimentos de pessoas vindas principalmente de Mato Grosso e Goiás e de áreas já ocupadas por plantações no município de Exu, em Pernambuco.
Para o movimento, a expansão da monocultura pode pressionar áreas de vegetação nativa e aumentar o risco de contaminação ambiental pelo uso de agrotóxicos. A preocupação também envolve atividades econômicas tradicionais desenvolvidas na região.
Aldenir Saraiva defende que a Chapada do Araripe possui alternativas de desenvolvimento que poderiam gerar renda sem ampliar a pressão sobre os recursos naturais.
“Nós temos potencial para o ecoturismo, temos potencial para o turismo cultural, temos potencial para valorizar as comunidades tradicionais, as comunidades extrativistas, que são atividades econômicas, mas que não devastam a Chapada do Araripe”, afirma. A ideia seria desenvolver rotas como hoje existem no Vale do Catimbau, no Agreste de Pernambuco.
Sociedade civil cobra fiscalização e planejamento
Para Emmanuela Leite, diretora do Coletivo Green Kariri, integrante do Movimento Salve a Chapada do Araripe, o futuro da Chapada do Araripe deve ser discutido considerando sua importância ambiental, hídrica, cultural e econômica. Segundo ela, o Plano de Manejo é fundamental para organizar o uso do território e estabelecer critérios para o desenvolvimento de atividades econômicas sem comprometer os atributos ambientais que justificam a existência da Área de Proteção Ambiental (APA).
A preocupação é garantir que as regras sejam efetivamente aplicadas. “É fundamental que suas diretrizes sejam efetivamente implementadas, acompanhadas e fiscalizadas, com transparência e participação da sociedade”, afirma Emmanuela.
Na avaliação da diretora, qualquer expansão de atividades de maior impacto deve considerar as características específicas da Chapada do Araripe, principalmente recursos hídricos, biodiversidade, solos, nascentes e comunidades que dependem desses recursos.
O coletivo defende o fortalecimento do licenciamento ambiental, da fiscalização e do monitoramento do uso do solo e dos recursos hídricos, além de transparência sobre empreendimentos instalados ou que pretendem se instalar na região. Também considera necessário avaliar os impactos cumulativos de diferentes projetos.
“Às vezes, cada empreendimento isoladamente pode parecer ter um impacto pequeno, mas a soma deles pode produzir consequências importantes para a água, o solo, a biodiversidade e as comunidades”, explica.
Emmanuela pondera que a discussão não deve ser reduzida a uma oposição entre agronegócio e preservação. Para ela, é possível conciliar geração de renda e conservação desde que o desenvolvimento respeite os limites ecológicos do território.
“Acho fundamental que a discussão não seja colocada simplesmente como uma disputa entre agronegócio e meio ambiente. O que precisamos defender é um desenvolvimento econômico responsável, que gere renda e oportunidades, mas que respeite os limites ecológicos da Chapada do Araripe”, afirma.
Entre as alternativas, o Coletivo Green Kariri aponta a agricultura sustentável, agroecologia, sociobiodiversidade, turismo de natureza e economia baseada na conservação. “A Chapada do Araripe não é apenas uma área disponível para expansão econômica. É um patrimônio ambiental e social que presta serviços ecossistêmicos fundamentais para toda a região”, destaca Emmanuela.
Produção de mel entra no debate
Outra preocupação apresentada pelo movimento é o impacto sobre a apicultura. A região é uma importante produtora de mel, atividade que, segundo ela, estaria sofrendo redução nos últimos anos.
A integrante do Salve a Chapada relaciona essa preocupação a relatos sobre o uso de agrotóxicos em áreas agrícolas. Ela menciona ainda informações sobre o uso de drones para aplicação dos produtos.
A redução da produção de mel estaria relacionada ao uso de agrotóxico. Para o movimento, a preocupação ultrapassa a produção de mel, já que a preservação das abelhas está relacionada à polinização e ao equilíbrio dos ecossistemas.
Seminário no Piauí terá debate sobre energia eólica
A agenda do movimento também passou a incorporar os impactos da expansão da energia eólica no Piauí. O tema será discutido no terceiro seminário Salve a Chapada do Araripe, marcado para 29 de agosto, em Simões (PI).
Segundo Aldenir, grupos do Piauí já atuam contra impactos associados aos empreendimentos e haverá um grupo de trabalho específico sobre o assunto durante o seminário.
O encontro dará continuidade a uma série de seminários realizados nos estados que compõem a Chapada do Araripe. O primeiro ocorreu no Ceará e o segundo em Exu, em Pernambuco. Representantes do ICMBio participaram dos dois encontros anteriores, segundo Saraiva.
Pressão pela preservação
Criado como grupo organizado em fevereiro de 2025, o Salve a Chapada do Araripe vem ampliando a articulação entre entidades e moradores dos três estados. Desde o início da mobilização, o grupo já encaminhou cartas e documentos ao ICMBio, realizou seminários e atos públicos e participou da elaboração de iniciativas legislativas municipais voltadas à proteção da área.
Entre os resultados citados por Aldenir está um projeto de lei apresentado em Santana do Cariri, no Ceará, com medidas relacionadas à proteção da área da Chapada do Araripe e à restrição do uso de agrotóxicos.
Outra frente defendida pelo grupo é o reconhecimento da região como patrimônio da humanidade pela Unesco. A candidatura ainda está em processo, com seminários realizados anualmente em Nova Olinda, no Ceará, para reunir informações e fortalecer a proposta.
fonte: portal Movimento Econômico