
COLUNA NORDESTINADOS A LER
POR LUCIANA BESSA
Publicado no ano de 2024, As conchas não falam, da escritora sergipana Taylane Cruz é uma obra de contos, vinte e sete no total, protagonizados por mulheres (meninas, professoras, mães, tias e avós negras) permeadas por dores, angústias e traumas em decorrência das múltiplas violências que foram acometidas.
Mas como desde que nasceram eram viciadas em ser, tais mulheres, muitas delas sem nome, continuam andando por aí resilientes e cônscias das singularidades e dos desafios de existir em uma sociedade patriarcal.
Engana-se o leitor/a leitora que supõe estar diante de uma obra triste e densa por trazer à tona experiências perturbadoras. As conchas não falam expõem narrativas doridas, contudo, que podem e são superadas pelo afeto, pelo acolhimento, pela rede de apoio, pela amizade e pela resistência.
A obra é em si um turbilhão de sentimentos/sensações: fala sobre o processo escutatório (para lembrar Rubem Alves), sobre romper silenciamentos, sobretudo, é um pedido comovente de atenção em relação às crianças. A psicanalista Vera Iaconelli é taxativa ao declarar: “Escutar é uma das coisas mais difíceis do mundo”.
Publicada pela editora Haper Collins, As conchas não falam, com um pouco mais de cento e cinquenta páginas, é embalada por um misto de densidade e sensibilidade. Ao findar a última página, o desejo do leitor/da leitora é correr para abraçar cada criança (em geral sem nome, pois poderia ser qualquer uma que conhecemos) vítima de abuso, de exploração, de negligência etc.
Na impossibilidade de conhecermos o livro em sua totalidade neste texto, comecemos pela epígrafe, da escritora e ativista das mulheres Audre Lorde:
“Esse é um poema simples
Para as mães irmãs filhas
garotas que eu nunca fui.
(…) Essas pedras em meu
coração são vocês
carne da minha carne.”
Os versos foram extraídos do poema “Para mulheres que choram na rua” e explora temáticas como a dor compartilhada e a identidade feminina tão presentes na obra de Taylane Cruz. Em seguida, a dedicatória: “Para minha mãe”.
As imagens presentes em cada conto não só enriquecem sua compreensão, como deixa o texto mais encantador, facilitando o entendimento do que está sendo narrado. O projeto gráfico é assinado pela designer e pesquisadora Mayara Smith, mulher negra, cuja essência de sua obra é a negritude, tal como Taylane Cruz. Em seu perfil no Instagram, a escritora declarou que costuma pensar o processo de escrita como uma encantaria. Escrever é para ela um percurso que compreende três territórios: o primeiro deles é a pele, onde é possível viver as memórias e as emoções.
Quanto à capa, sempre fui ensinada que não devemos comprar um livro observando-a. Mas é difícil olhar para capa (do Designer – Ilustrador – Preto – Draco) de As conchas não falam e não querer mergulhar nas águas azuis do mar com uma enorme concha de cores vermelha (símbolo da paixão, do poder), preta (símbolo do mistério, do luto) rodeada de espécies de algas laranjas (símbolo da vitalidade, da alegria).
Li em algum lugar que as conchas simbolizam a proteção energética, à conexão com o mar, à fertilidade, a escuta interior e o despertar espiritual. As conchas de Taylane Cruz representam o gênero feminino, sua vulnerabilidade, a força interior que cada uma traz dentro de si, afinal somos feitos de ecos telúricos. A ancestralidade atua na obra da escritora como uma tecnologia de conexão e de escuta, pois à medida que ela escreve ela ouve vozes: Conceição Evaristo, Alina Pain, Daniela Coelho, Iara Vieira etc.
Segundo a Taylane Cruz, em entrevista na Bienal do Livro na Bahia, As conchas não falam é um título irônico, pois as mulheres falam, sim, e à medida que falam, se curam, como podemos observar em: “A bicicleta amarela”, “A filha”, “A mãe”, “V e G”, “Um amor”, “As irmãs”, etc.
Importante destacar como o leitor pode ler a obra: narrativas independentes (“A bicicleta amarela”, “O pai é um avião”); narrativas que se entrelaçam, logo, se complementam (“Quando levaram o tio” e “As irmãs”). No primeiro conto, 1ª pessoa, a narradora retrata a relação com o tio, que a levava para o campinho de futebol para ensiná-la a fazer gol, como para pescar e galopar no cavalo dele. Até o dia em que ele foi levado. Precisou ser segurada pela mãe, pois amava tanto o tio, que seria capaz de ir com ele em meio aos gritos de todos: “esse demônio, ele não tem coração”. Por mais que ela perguntasse, gritasse e esperneasse ninguém lhe dava a mínima atenção “(…) adulto nenhum me via”. O texto finaliza e a única coisa que a narradora sabe é que é “pesado demais ter um coração”. O último conto, “As irmãs”, Deolinda é narradora que dirá ao leitor de forma mais detalhada o amor que ambas nutriam pelo tio e o que ele foi capaz de fazer: abusar sexualmente dela (s). Como a irmã também amava o tio, nunca lhe contou nada do que acontecia. “Você me protegeria se eu tivesse contado?”. Por isso, resolve “abrir sem dó a carne daquele silêncio”. Como era viciada em escrever cartinhas, remeteu muitas delas a “vários destinatários” – avó, tias, vizinhos. A palavra seria seu bote de salvação. “Mas ninguém leu. Fiquei muito frustrada, como podia ninguém ter lido?”. Deolane pensava em desistir, porque até para Deus ela escrevera. “Mas, olha, se existe uma pessoa quieta, calada, quase muda, essa pessoa é Ele. De tudo sabe, tudo vê, mas finge que não”. Decidida a “quebrar a corda daquele silêncio”, a menina começa a dar sinais. Foram eles os responsáveis por levarem o tio para longe das irmãs.
As conchas não falam é um livro sobre feridas e curas.
Cada conto é um espaço de afeto.
Cada conto é a oportunidade de romper silenciamentos ancestrais.
Cada conto é a certeza de que a violência vem de onde menos se espera, mas que é possível se curar e ser feliz.
Cada conto é o fortalecimento da musculatura física e mental da mulher.
Cada conto é um caminhar apesar das violências no caminho.
Cada conto é um espanto com o humano.
Coloque a concha no ouvido e escute o que Taylane Cruz tem a nos dizer.