
Artigo do Francisco Filho
Meu tema para esta semana poderia ser a recente troca de declarações entre Trump e Lula durante a reunião do G7. Contudo, diante de tanto comentário instantâneo e tanta análise apressada, preferi buscar ajuda em um poeta do sertão. Afinal, às vezes, uma metáfora explica melhor a realidade do que uma pilha de relatórios.
Em O Boi Zebu e as Formigas, Patativa do Assaré conta a história de um boi que, confiando no próprio tamanho, acreditava que nada poderia contrariar sua vontade. Do outro lado estavam as formigas: pequenas, numerosas e quase invisíveis. À primeira vista, o resultado parecia óbvio.
O tempo passa, os personagens mudam, mas a lógica permanece. Na política internacional, os zebus raramente faltam. Muda apenas o tamanho do curral e a quantidade de aplausos que recebem.
É nesse contexto que a soberania retorna ao debate. E talvez poucas palavras sejam tão repetidas e tão mal compreendidas. Para alguns, ela serve como bandeira. Para outros, apenas como argumento de ocasião.
Na prática, soberania não significa fechar portas nem levantar muros. Significa preservar a capacidade de decidir os próprios caminhos. Parece simples. Ainda assim, nem sempre é entendida dessa forma.
Existe, porém, uma contradição curiosa. Muitos defendem a independência nacional, mas aguardam a validação de líderes estrangeiros para confirmar as próprias opiniões. Nesse caso, a soberania parece funcionar como um produto de importação.
Talvez por isso Fernando Pessoa tenha escrito que sua pátria era a língua portuguesa. A frase lembra que uma nação não vive apenas de território ou riqueza. Vive também de memória, cultura e identidade.
Assim, quando um povo deixa de reconhecer o próprio valor, torna-se vulnerável antes mesmo de enfrentar qualquer ameaça externa.
Por isso, a discussão entre Trump e Lula talvez seja menos importante do que parece. Presidentes passam. Tensões diplomáticas passam. O que permanece é a pergunta deixada por Patativa: as formigas ainda acreditam na força do formigueiro?
O poeta respondeu sem tratados nem teorias:
“Mostraro nessa lição
Quanto pode a união.”
Talvez esteja aí uma verdade que atravessa governos e épocas. O maior risco para uma nação não é a existência de zebus. Eles sempre existiram.
O problema começa quando as formigas deixam de defender o formigueiro e passam a invejar o curral.
Nenhum país perde sua soberania de uma só vez. Primeiro, ela deixa de ser exercida. Depois, deixa de ser valorizada. Por fim, deixa de ser percebida. Nessa altura, o zebu já não precisa derrubar a cerca. Alguém abre o portão.