
COLUNA NORDESTINADOS A LER
POR LUCIANA BESSA
Para que é mesmo um Curso de Escrita Literária?
Por acreditar que todos nós temos uma história a ser contada, por entender que o ato da escrita não é um fenômeno espontâneo, mas uma habilidade que requer estudo, dedicação, planejamento, método e estímulo à imaginação, aceitei a provocação da amiga e psicóloga Júlia Barreira para conduzir um Curso de Escrita Literária.
Munida dos apetrechos de trabalho – livros, cadernos, computador, lápis, caneta, gravador de voz – me dirigi ao Edifício Unique, Torre Business, 2º andar. Na sala 205, encontrei um espaço florido, acolhedor e silencioso, daqueles projetados com móveis sóbrios de tons pastéis e afabilidade, para receber pessoas que precisam vomitar suas angústias, não se deixar subjugar pelas expectativas dos outros, ou mesmo para se conhecer melhor.
Neste ambiente convidativo cheirando a flores do campo, de pronto me chamou atenção uma estante com livros (à direita de quem entra). Na primeira prateleira, ampulhetas de todas as idades: 3, 5, 10, 15, 30 e 60 minutos. É preciso estratégias para dialogar com o tempo!
Acima desse móvel, um quadro de cores vivas (laranja, vermelho, preto) com três elementos (canto esquerdo): um farol, um relógio e uma ampulheta. Como não me lembrar do sol “Desvirginando a madrugada” escura e fria? Como não olhar aquela imagem e não querer me achar? Não, nunca estive perdida, mas é que às vezes, me desencontro de mim mesma. Como não me lembrar da romancista inglesa, Virgínia Woolf, que em seu romance Ao Farol, publicado pela primeira vez no ano de 1927, trouxe à baila não as ações externas das personagens, como os leitores estavam habituados à época, mas a riqueza psicológica que delas exalavam.
É verdade que não se trata de um livro fácil de ser lido, mas necessário para quem deseja palmilhar a complexidade das relações familiares, o luto e a passagem do tempo. Novamente aqui o tempo, “esse compositor de destinos”.
Antes mesmo que eu tivesse a chance de analisar o quadro maior à minha esquerda, fui despertada pelo “bom dia” das mulheres que entravam naquela sala ávidas por aprender e ensinar; falar e ouvir; sorrir e chorar; acolher e ser acolhida; escrever e serem escritas.
Como ler e escrever é parte do ser e estar no mundo, ao menos para mim, fui nocauteada por experiências de vida tão diferentes e tão iguais. Quando todas elas, juntas e misturadas foram colocadas à minha frente, tentei resistir e me ater ao conteúdo do material diante das minhas “retinas tão fatigadas”.
Eu me preparei para esse curso durante três longos meses. Eu planejei um “manual literário” com (alguns) dos textos que mais me atravessaram. Eu reli as teorias da escrita do Stephen King e do Philip Roth, eu revisitei os textos teóricos do Mário de Andrade e do Osman Lins, eu rememorei alguns dos 100 exercícios do Mário Falcão, eu me envolvi novamente com as cartas trocadas entre o jovem Franz Kappus e o escritor theco Rainer Maria Rilke (Cartas a um jovem poeta) e, ainda por cima, conheci e apostei nos ensaios da Betina González: A obrigação de ser genial, afinal, para a nossa sociedade, ser boa é insuficiente. A escritora argentina já me ganhou no primeiro texto, quando ela discorre sobre a emoção dentro do ato criativo, já que esse “movimento” está nos três pilares da literatura: no leitor, no texto e na autoria.
Logo eu que me considero uma mulher emocionada e conhecedora da Teoria Literária, acreditei piamente que estaria preparada para as perguntas que estariam por vir: o que é um conto? O que é uma crônica? Como eu sei a diferença entre um e outro? O que é um narrador observador e um narrador onisciente? O que é um ensaio literário? E um texto memorialístico?
Para tais questionamentos, penso ter me saído muito bem. Mas como a imaginação é parcial, pelo menos a minha, não estava (totalmente) preparada para encontrar mulheres não só que escrevem, mas cuja escrita, muitas vezes, desestabiliza o leitor/a leitora.
Diante daquelas nove mulheres, com nove histórias – desamparos, dor de existir, sensação de insuficiência, cansaço físico e mental, relações familiares e amorosas desafiadoras, atribulações no ambiente de trabalho, dificuldades em conciliar as múltiplas atividades que a vida impõe, conexões interrompidas ou na luta para não serem descontinuadas – senti um misto de êxtase e temor.
Isso mesmo que você ouviu: te-mor! Diante dessa profusão de narrativas em que o Tempo tem se tornado um algoz, me questionei: teria eu o direito de estar ali conduzindo o processo criativo daquelas mulheres, mães, filhas, tias, avós, namoradas, esposas, viúvas, que já escrevem e escrevem muito bem?
Neste instante escuto a Ludimilla Barreira afirmar que “O Curso de Escrita Literária não é sobre escrever, é sobre como equilibrar o ato de escrever”. Repeti mentalmente essa frase como um mantra durante toda a semana já me preparando para nosso terceiro encontro, 23 de maio.
Eu que acreditava que um Curso de Escrita Literária era para guiar o outro para o universo da teoria + prática do ato da escrita, aprendi que ele, nada mais é, do que um encontro de mulheres leitoras, dotadas das mais diferentes habilidades, mas que não sabem, ou não acreditam no seu potencial (ainda).
Minha missão é não conduzir nada nem ninguém, mas despertar o potencial que existe em cada uma delas. Se vou conseguir completar essa incumbência, só o Tempo (olha novamente ele aqui) dirá!