
Ilustração: Leia Sempre Brasil (Desenvolvido com IA
Por Oberdan Leite, professor
José, um dedicado professor, sempre acreditou e pregou em suas aulas que a vida cotidiana era feita de dois lados bem visíveis, tal qual uma moeda comum: a cara e a coroa. Dizia ele aos seus alunos:
– A cara é aquilo que mostramos ao mundo — títulos, alegrias, aparência, traições, conquistas. A coroa, por sua vez, são os valores materiais — dinheiro, compras e vendas, bens, viagens, estabilidade.
Durante anos, repetiu isso em sala de aula, vivendo, mas não percebendo que havia algo mais importante escondido entre esses dois lados.
Foi numa manhã tranquila de ciclismo que tudo mudou.
Sem um porquê aparente, o ar que lhe escapava tornou-se uma respiração ruidosa e difícil. Com o fôlego entrecortado e a urgência que lhe restava, carregado pelo filho e pela vontade de viver, ele procurou rapidamente o hospital.
José, professor respeitado, homem de palavras firmes e rotina organizada, viu-se de repente frágil. Lá, entre exames e olhares preocupados, veio o diagnóstico: infarto. Precisaria de cirurgia imediata.
O mundo, que antes parecia tão organizado em “cara” e “coroa”, começou a perder sentido.
Já no pronto atendimento, entre seu arquejo violento e o esforço do peito em poder falar, seus ouvidos lhe suavizaram a dor com uma voz que dizia:
– Professor, o senhor por aqui! Como vai? Deite-se!
O enfermeiro tinha um sorriso tranquilo e um olhar familiar. Era um ex-aluno.
– Professor, o senhor talvez não se lembre, mas fui seu aluno na escola Martiniano. Devo ter lhe dado muito trabalho, mas hoje estou aqui trabalhando.
O professor José não sabia sorrir, mas deu seus parabéns sufocados.
A conversa começou tímida, mas logo ganhou calor. A dor, naquele momento, não desapareceu, mas suavizava como se fosse compartilhada.
– Professor, nós vamos levar o senhor até a sala de cirurgia, mas vai dar tudo certo. Se preocupe não!
Pouco depois, ao ser levado para a sala de cirurgia, outro rosto conhecido surgiu empurrando a maca. Mais um ex-aluno. Este falava sem parar, contando casos, tentando distrair o antigo mestre. José percebeu que, mesmo naquele momento crítico, estava sorrindo.
Ao chegar na sala de cirurgia, cercado por médicos e estagiários, vieram mais surpresas: duas pessoas entre as oito que lá estavam eram dois enfermeiros que também haviam passado por sua sala de aula.
O médico escarificava José através de seus punhos procurando minudenciar os seus porquês com seu cateter sob o pretexto da angioplastia, mas o ambiente, que deveria ser frio e assustador, ganhou um tom inesperadamente humano. Enquanto o professor se empenhava em entender as razões da sua existência através daquela sonda invasiva que o médico utilizava em seu braço direito, conversas leves, palavras de encorajamento e olhares de respeito se manifestavam.
– Pronto! Problema resolvido! – dizia o médico satisfeito com os resultados transfigurados em satisfação.
Quando na saída da sala de cirurgia, um dos alunos se antecipou:
– Você vai agora para a UTI, professor, mas não se preocupe que é apenas para acompanhamento da sua recuperação.
O professor sentia que aquelas palavras não se faziam dentro de um coleguismo conspiratório, tão imoral quanto o canibalismo que promete amor. Não! Ele sentia mesmo que tais palavras eram realmente verdadeiras e cuidadosas.
Horas depois, na UTI, ainda confuso e com o coração batendo com cautela, José abriu os olhos e encontrou mais um rosto familiar. Uma fisioterapeuta. Outra ex-aluna. Entre a nudez dos tecidos brancos e o envergonhamento discreto do professor, ela falou com doçura, explicou cada passo e transmitiu calma.
Foi ali, naquele leito silencioso, cercado por máquinas e memórias vivas, que José aprendeu mais uma coisa: a vida nunca foi apenas cara e coroa.
Entre esses dois lados existe a serrilha — aquele detalhe quase invisível da moeda, que poucos notam, mas que dá forma, firmeza e valor ao todo. Na vida, a serrilha são os valores humanos: o cuidado, o respeito, a empatia, o impacto silencioso que deixamos nos outros.
José enxergou que a dor pela qual passou foi colocada em seu caminho justamente pelo crescimento de vida em que ele estava necessitando. Não foi em vão.
O mestre percebeu que não seriam seus títulos (a cara), nem seus bens (a coroa) que o sustentariam naquele momento. Eram aquelas pessoas. Seus ex-alunos. Frutos de algo que ele plantou sem medir, sem contar e sem esperar retorno algum.
E ali, entre a fragilidade e a gratidão, ele sorriu com uma certeza tranquila.
Ele acreditava ter sido um bom professor!
Moral: Colhe-se o aluno que se planta.