7 de março de 2026
Violência simbólica: a opressão que silencia mulheres no cotidiano

Foto: Desenvolvida com apio de IA

Por Marcela Carneiro, professora

A violência contra a mulher não se manifesta apenas por meio de agressões físicas ou ameaças explícitas. Há uma forma mais sutil, porém profundamente estruturante, que atravessa o cotidiano feminino: a violência simbólica. Invisível aos olhos, ela opera por meio de discursos, práticas sociais e relações de poder que naturalizam o assédio, silenciam vítimas e protegem agressores.

Conceituada pelo sociólogo Pierre Bourdieu, a violência simbólica ocorre quando desigualdades são reproduzidas de forma tão incorporada à cultura que passam a ser vistas como “normais”. No caso das mulheres, ela se revela, por exemplo, quando um homem assedia e o debate público se desloca do ato violento para a trajetória do agressor. Frases como “tenho pena dele”, “é um menino novo” ou “acabaram com a vida dele” evidenciam uma inversão moral: a empatia se dirige a quem cometeu a violência, enquanto a mulher assediada é relegada ao silêncio.

Esse mecanismo retira o foco da vítima e a coloca, muitas vezes, em posição de julgamento. Sua palavra é questionada, sua dor relativizada e sua experiência tratada como um problema secundário diante da reputação masculina. Trata-se de uma lógica que não apenas minimiza o assédio, mas também desencoraja denúncias, reforçando o medo de exposição e retaliação.

No ambiente de trabalho, a violência simbólica assume contornos ainda mais perversos. É comum que homens utilizem cargos, influência ou suposta boa vontade como instrumento de controle. Ajuda profissional, indicações, facilidades ou proteção passam a vir acompanhadas — de forma explícita ou velada — da expectativa de favores sexuais. O assédio, nesses casos, se disfarça de gentileza, oportunidade ou parceria, tornando-se mais difícil de ser identificado e denunciado.

A mulher, então, é colocada diante de um dilema injusto: aceitar a investida para manter seu espaço profissional ou recusar e arcar com consequências como isolamento, descredibilização ou perda de oportunidades. Quando decide denunciar, frequentemente é acusada de ter “interpretado mal”, de ser ingrata ou de querer se beneficiar da situação. Mais uma vez, a estrutura se move para proteger o agressor e desacreditar a vítima.

A linguagem cotidiana desempenha papel central nesse processo. Expressões que normalizam o assédio, que justificam comportamentos abusivos como “mal-entendidos” ou que associam o avanço profissional feminino a favores pessoais reforçam a ideia de que o corpo da mulher é negociável. Assim, o mérito feminino é constantemente colocado sob suspeita, enquanto abusos são tratados como algo quase inevitável.

A violência simbólica, portanto, não é menor nem menos danosa. Ela sustenta e legitima outras formas de violência ao criar um ambiente social permissivo, onde a dignidade das mulheres é secundarizada. Enfrentá-la exige uma mudança profunda de perspectiva: parar de proteger trajetórias masculinas às custas do silenciamento feminino e reconhecer que nenhuma posição social, ajuda profissional ou “boa intenção” pode justificar a violação dos limites e da dignidade de uma mulher.

Romper com essa lógica é um passo fundamental para a construção de uma sociedade verdadeiramente justa, onde a palavra das mulheres seja ouvida, respeitada e protegida.